22° Congrenf: Petroleiro da Petrobrás faz relato forte sobre quando foi “privatizado” junto com a BR Distribuidora

Vitor Menezes / Imprensa do NF – Petroleiro da Petrobrás há apenas sete meses, lotado na base de Imboassica, em Macaé, Alan Lemos, 37 anos, participou do seu primeiro Congrenf (Congresso dos Petroleiros e Petroleiras do Norte Fluminense) e chamou a atenção dos delegados e delegadas por ter dado um depoimento forte sobre a sua passagem, por cinco anos, pela BR Distribuidora, antes da privatização em 2019. O trabalhador relatou os impactos devastadores da venda da empresa, incluindo casos de suicídios entre antigos empregados.

Formado em contabilidade, Lemos tem pós-graduação em Contabilidade Pública e em Direito Tributário e diz estar orgulhoso de estar de volta ao sistema Petrobrás. Confira a entrevista concedida à Imprensa do NF durante o evento:

Imprensa do NF – Depois de tantos anos na BR, como está sendo esse retorno à Petrobrás:

Alan Lemos – Eu já era pleno na BR. Hoje em dia eu sou júnior na Petrobrás, com muito orgulho de ter voltado para o sistema Petrobrás. É um recomeço, né?

Imprensa do NF – Você falou que está com sete meses de Petrobrás, é isso?

Alan Lemos – Isso, isso mesmo. Sete meses. Eu teria 11 anos de BR. E foi necessário fazer um novo concurso para que eu pudesse voltar para o sistema Petrobrás. E, que eu saiba, tem mais ou menos 40 pessoas que eram da BR e hoje são Petrobrás através de um novo concurso. Isso dá mais ou menos 1% da força de trabalho da BR.

Imprensa do NF – Durante o congresso você deu um testemunho muito forte do que aconteceu com aqueles trabalhadores. Você pode rememorar para mim um pouco daqueles impactos que você relatou, de quantos que eram, enfim, um pouco do que você resumiu para a gente no Congresso?

Alan Lemos – Sim, com certeza. Eu vejo que uma preocupação sindical muito grande é com as empresas que foram vendidas. A Eletrobras, a BR Distribuidora, a Liquigás, as demissões que aconteceram na Fafem, as demissões que aconteceram na Dataprev. Porém, uma coisa muito importante, até mais importante do que as empresas, mesmo porque as empresas são coisas, é a gente olhar para as pessoas. Porque dentro dessas empresas privatizadas, elas não eram invólucros apenas de coisas. Lá dentro existiam pessoas que fizeram concurso, que entraram de uma maneira tão legítima quanto que entraram na Petrobrás através de concurso. E essas pessoas que estavam na BR, na Liquigás, no sistema Eletrobras, que envolvia Chesf, Furnas, Eletronorte, Eletro Sul, entre outras, são pessoas que foram simplesmente ignoradas. São pessoas que, da noite para o dia, tiveram seu regimento jurídico alterado de empregados públicos para empregados privados, sem qualquer infralegal nesse sentido. Ou seja, não houve nenhum decreto, não houve nenhuma portaria, não houve absolutamente nada dizendo assim, essas pessoas vão ser transformadas a partir do dia tal de empregados públicos para empregados privados. Isso foi uma coisa completamente silenciosa e tácita.

Imprensa do NF – Você usou a expressão de que eles foram privatizados juntos, que os trabalhadores foram privatizados…

Alan Lemos – Isso, os trabalhadores foram vendidos juntos de porteira fechada E hoje tem cinco instrumentos no Congresso Nacional para recuperar essas pessoas. O ideal é a gente conseguir retomar essas empresas através de reestatização, refundação, recompra, de alguma maneira. Só que tem uma maneira, tem uma outra alternativa que é mais rápida, barata e socialmente mais eficiente ainda, que é recuperar as pessoas. Já tiveram cinco projetos de lei no Congresso Nacional para recuperar as pessoas. Dois já não deram certo, porque elas eram relacionadas a medidas provisórias, e três estão ocorrendo na Câmara e no Senado. Uma delas é para a Eletrobras, que é relacionada ao veto 50 de 2026, deve ser votado esses dias no Congresso. E o outro é o projeto de lei 2370 de 2024 na Câmara, que inclusive agora dia 7 de julho vai ter audiência na CFT, Comissão de Finanças e Debutação da Câmara dos Deputados, para chamar de volta as pessoas.

Imprensa do NF – Você falou dos impactos financeiros, mas há também os psicológicos, até casos de suicídio… Você acompanhou bem de perto isso, tem relatos sobre amigos, colegas de trabalho, você viu esses casos graves acontecendo?

Alan Lemos – Sim, infelizmente aconteceram dois casos de suicídio. A maioria dos casos foi o seguinte, as pessoas foram submetidas à privatização, para elas foi oferecido um PDV, três meses depois da privatização, de sete salários. Muitas pessoas pegaram porque viram que não teriam mais futuro na empresa. De que maneira? Muitas comunicações foram feitas através da diretoria de coisas que estavam dois passos à frente, dois, três passos à frente. Então a associação, o sindicato perguntavam para a diretoria da empresa se ela iria fazer aquilo que ela estava desenhando como futuro, ela dizia que não, não vai ser vendido, nada disso é verdade. Por exemplo, dizia assim, estamos em busca de um parceiro estratégico. Tá, mas o nosso parceiro estratégico é a Petrobrás, é a maior empresa do Brasil, para que a gente vai em busca de outro parceiro estratégico? Ou se vão vender a empresa e diziam, não, nós não vamos vender a empresa, isso está fora de cogitação. E deu pouco tempo depois e eles venderam. Eram comunicações truncadas que davam dica do que iriam fazer e quando a gente confrontava sobre o que eles iam fazer no próximo passo, eles diziam que não, e tempos depois eles faziam aquilo. E o que aconteceu foi que as demissões aconteceram em grande parte também por causa da reforma trabalhista de 2017, que permitiu a negociação direta entre o patrão e o empregado para quem é em nível superior. A partir dessa alteração na lei, que o acordado valia mais do que o legislado, quem era nível superior tinha a possibilidade de renegociar salário para baixo, como eles ofereceram para renegociar de 40% a 60% de perda de renda. Quem não aceitou foi demitido. Porém, quem era nível médio não teve essa opção, já foi demitido realmente. Se a gente pegar todo mundo que era concursado da BR Distribuidora e analisar hoje, deve ter coisas assim de 1%, que permanece na vibra. E ainda assim permanece com uma qualidade de trabalho bem inferior ao que era. De todo mundo que estava na BR distribuidora na data da privatização, eu digo que pelo menos 80% saíram logo, pegaram o PDV ou saíram em pouco tempo. E as outras pessoas que ficaram tiveram perda de renda e foram passando por demissões ao longo dos meses. Então se criou um clima no qual quem era concursado ficava com uma espécie de X nas costas.

Imprensa do NF – Isso tudo aconteceu num período muito curto, muito rápido. A venda da BR foi 2019, e o que você está me relatando é um curso de um ano, por exemplo, até menos?

Alan Lemos – A partir do momento que o governo federal novo assumiu, em 1º de janeiro de 2019, as pessoas que tinham alguma leitura política acreditavam que a venda da BR iria acontecer, mas que iria levar cerca de dois anos. Acredito que essa estimativa é porque foi o tempo que o FHC levou para começar a privatizar empresas lá na década de 90. Todavia, a privatização da BR Distribuidora aconteceu em julho daquele mesmo ano. Então foi um lapso de apenas seis meses do novo governo assumir até ele fazer a venda da BR, até ele concluir a venda. Que já tinha sido aberta anteriormente pelo Michel Temer, que vendeu cerca de um terço. Depois veio o governo Bolsonaro, o começo dele vendeu o segundo terço, e do meio para o final o governo Bolsonaro vendeu o último terço. Foi nesse meio tempo que teve a troca de regime jurídico de público para privado. Isso fez com que as pessoas tivessem um prejuízo, eu calculo mais ou menos, de um apartamento por cabeça. Então, quem ganhava menos teve um prejuízo um pouco menor, quem ganhava mais teve um prejuízo ainda maior. Só que eu vejo que o prejuízo me parece ter sido mais grave para que as pessoas já estavam no nível alto da carreira. Já estavam assim de 45 anos, 50 e em diante, já estavam visando a aposentadoria, contando já alguns anos para a aposentadoria e veio uma surpresa dessa. E se a pessoa quisesse se aposentar, ela teria que pagar uma luva, uma joia pesada para Petros. E a pessoa estava numa situação que ela tinha sete salários na mão, tinha que pensar se ela pagava ou se alimentava, ou se ela procurava um novo emprego, ou se ela pagava a joia. E isso desconcursada, né? Sem concurso, sem emprego. E logo em seguida, após a venda da BR, começou a pandemia. Então foi um contexto muito difícil para todo mundo.

Imprensa do NF – Então a força de trabalho encolheu absurdamente entre BR e Vibra, não é? Era de quanto e veio para quanto?

Alan Lemos – No total de pessoas privatizadas, são estimados em 24 mil pessoas, incluindo 14 mil da Eletrobras. Estavam ali naquele momento da venda. Isso, é. Cerca de 14 mil pessoas na Eletrobras e cerca de 7 mil nas outras privatizadas. A BR distribuidora tinha 3.200 pessoas. Dessas 3.200, cerca de 1% conseguiram passar no concurso da Petrobrás, eu sou uma delas e as demais pessoas, uma pequena parte está na Vibra e outra parte faz parte da diáspora da BR, ainda numa condição sofrível de vida financeira, econômica, situação apertada, muita gente virou Uber, algumas pessoas foram embora do Brasil, infelizmente dois colegas, como eu já mencionei, cometeram suicídio. E nada disso é por acaso, sabe? Isso tudo é política, isso é oriundo de política.

Imprensa do NF – Obrigado pelo seu relato. Gostaria de acrecentar alguma informação?

Alan Lemos – Eu gostaria de acrescentar que essas comunicações truncadas da diretoria, na época de 2019, quando houve a venda da BR, para 2020, na época nós não sabíamos, mas depois percebemos que isso é assédio institucional. Realmente assédio institucional, não tem outro termo. É importante ressaltar que as pessoas da sede foram menos demitidas do que as pessoas de fora da sede. As pessoas da área meio foram mais demitidas do que as pessoas da área fim. E quem era nível médio foi muito mais demitido do que quem era nível superior, por causa das regras da reforma trabalhista, que permite uma negociação individual. Então, de qualquer maneira, a privatização foi muito ruim para todo mundo. Tinha um colega ou outro sem muita consciência política que achava que iria crescer com a privatização, Então, achando que a empresa estatal tem várias amarras e eu estou em uma posição X aqui, com a privatização eu vou crescer, vou virar um diretor, vou virar um gerente executivo e não restou outra opção para essa pessoa, a não ser pegar a PDV, porque senão ela seria demitida.

[Foto: Vitor Menezes / Imprensa do NF]