22º Congrenf: Primeira mesa traz debate sobre Comunicação sindical e Inteligência Artificial

A relação entre comunicação, tecnologia, Inteligência Artificial (IA) e organização dos trabalhadores foi o tema da primeira mesa de debates do 22º Congrenf (Congresso Regional dos Petroleiros e Petroleiras do Norte Fluminense), realizada na tarde desta terça-feira (10), no teatro do Sindipetro-NF, em Macaé. Com mediação dos diretores sindicais Johnny Souza e Jancileide Morgado, a atividade reuniu o jornalista Renato Rovai, fundador da Revista Fórum, e o publicitário e comunicador estratégico José Vital, presidente do Instituto Nacional de Inteligência Artificial com Direitos Sociais (INIADS).

Na abertura da atividade, Johnny Souza destacou a importância da participação da categoria no congresso e ressaltou o papel do evento como espaço de construção coletiva das lutas da categoria petroleira. “Eu queria parabenizar a todos nós por esse Congresso lindo que a gente está fazendo. A participação que a gente tem aqui é muito importante. Eu fico muito feliz em ver a união do nosso trabalhador aqui da base do sindicato”, afirmou.

Jancileide Morgado lembrou que o tema da Inteligência Artificial impacta diretamente a atuação sindical, especialmente em categorias que utilizam amplamente ferramentas digitais para negociação, mobilização e comunicação com os trabalhadores. “É sempre bom aprender mais sobre comunicação sindical, comunicar melhor com a nossa base, com os trabalhadores, e também refletir sobre o mercado de trabalho e o que vai acontecer daqui para frente”, observou.

Comunicação mudou porque a sociedade mudou

Em sua exposição, Renato Rovai fez uma análise histórica da comunicação popular e sindical, lembrando que sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos tiveram papel central na produção de informação ao longo das décadas de 1970, 1980 e 1990.

Segundo ele, jornais sindicais, rádios comunitárias, boletins impressos e redes de delegados de base eram fundamentais para a organização dos trabalhadores. No entanto, a transformação tecnológica promovida pela internet alterou profundamente esse cenário. “A sociedade mudou. Não foi só a comunicação que mudou”, afirmou.

Para Rovai, a internet inicialmente ampliou as possibilidades de democratização da informação, permitindo o surgimento de mídias independentes e veículos alternativos. Porém, esse processo passou por uma inflexão com o crescimento das grandes plataformas digitais. “O ecossistema da comunicação se abriu na produção, mas se fechou na distribuição”, resumiu.

Segundo o jornalista, atualmente o poder de determinar o alcance das mensagens deixou de estar concentrado nos veículos de comunicação e passou para empresas como Google, Meta, TikTok e YouTube. “O poder da comunicação migrou das organizações sociais e dos meios de comunicação para as plataformas digitais”, adicionou.

Algoritmos e disputa política

Rovai explicou que os algoritmos das redes sociais tendem a privilegiar conteúdos marcados pela emoção, pelo conflito, pela velocidade e pela simplificação, criando um ambiente diferente daquele em que tradicionalmente atuam sindicatos e movimentos populares. “A direita compreendeu mais rapidamente a lógica dos algoritmos”, avaliou.

Para ele, isso não significa abandonar a profundidade dos debates ou os processos democráticos das organizações dos trabalhadores, mas compreender as características do ambiente digital. “A gente vai ter que construir uma nova forma de fazer sem perder aquilo que a gente tem de bom”, defendeu o jornalista.

O expositor destacou que a comunicação sindical precisa aprender a operar em rede, produzir conteúdos adaptados às plataformas digitais e disputar visibilidade sem abrir mão da formação política. “Dirigente sindical tem que trabalhar nas redes hoje”, advertiu.

Entre os desafios apontados estão a necessidade de produzir vídeos curtos para ampliar alcance, utilizar linguagem adequada aos diferentes públicos e construir redes permanentes de compartilhamento de conteúdo. “No século XX a disputa era por narrativa e conteúdo. Hoje a disputa é por visibilidade”, resumiu.

Inteligência Artificial e o futuro do trabalho

Na segunda exposição da mesa, José Vital ampliou o debate para os impactos da Revolução Digital e da Inteligência Artificial sobre a economia, os empregos e os direitos sociais. Segundo ele, a humanidade vive uma transformação comparável à Revolução Industrial: “Nós estamos, de fato, em um novo momento da história: na luta sindical, na luta política, na luta nacional, na nossa família e no nosso modo de viver.”

Vital destacou que a Inteligência Artificial já está presente em praticamente todos os setores da economia e tende a se expandir em velocidade cada vez maior. O palestrante apresentou exemplos de aplicações em fábricas automatizadas, agricultura, logística, medicina, veículos autônomos e processos industriais, ressaltando que a combinação entre robótica e Inteligência Artificial está transformando profundamente a produção mundial.

“Tempestades estão chegando”

Uma das principais teses apresentadas por Vital foi a velocidade exponencial do avanço tecnológico. Segundo ele, as aplicações de Inteligência Artificial estão dobrando sua capacidade em períodos cada vez mais curtos, produzindo impactos inéditos sobre o trabalho humano. “Qual profissão do mundo consegue ter uma velocidade de aprendizado para acompanhar isso?”, questionou.

Ao longo da apresentação, o palestrante utilizou repetidamente a expressão “tempestades estão chegando” para alertar sobre a rapidez das mudanças tecnológicas e seus efeitos sobre o emprego, a renda e a organização social. Ele também relacionou o tema à crise climática, à saúde, aos transportes e aos sistemas produtivos, defendendo que a Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta poderosa para enfrentar problemas complexos, desde que esteja submetida a objetivos sociais.

Direitos sociais e organização dos trabalhadores

Ao abordar os impactos da tecnologia sobre o emprego, Vital fez um paralelo com a Revolução Industrial e lembrou que direitos hoje considerados básicos, como a jornada de oito horas, foram conquistados após décadas de mobilização sindical. Para ele, a velocidade das transformações exige que trabalhadores e sindicatos construam desde já uma agenda de defesa dos direitos sociais diante da automação crescente.

Entre as propostas debatidas estiveram a redução da jornada de trabalho, a renda básica universal, programas de requalificação profissional, tributação das empresas beneficiadas pela automação e mecanismos de proteção aos trabalhadores deslocados por novas tecnologias.

Vital também defendeu a regulamentação pública da Inteligência Artificial, a soberania digital e a construção de infraestrutura tecnológica nacional: “Queremos uma Inteligência Artificial que trabalhe para o nosso povo, que trabalhe para que a gente tenha qualidade de vida, mais tempo para viver, estudar, educar os filhos e conviver.”

Desafio para a categoria petroleira

Ao se dirigir especificamente aos petroleiros e petroleiras, José Vital propôs que a FUP e seus sindicatos criem mecanismos permanentes de acompanhamento da introdução da Inteligência Artificial na indústria do petróleo. “Vocês que trabalham na indústria petrolífera, qual o tamanho da encrenca que todos nós estamos enfrentando?”, provocou.

Entre as sugestões apresentadas está a criação de um observatório sobre Inteligência Artificial no setor petróleo, capaz de monitorar a adoção dessas tecnologias, produzir conhecimento técnico e subsidiar futuras negociações coletivas. Segundo ele, é fundamental que os trabalhadores acompanhem desde já os impactos da digitalização, da automação e da Inteligência Artificial sobre as condições de trabalho, a remuneração e o emprego.

Debate estratégico para o futuro

Ao final da atividade, ficou evidente que o debate sobre comunicação, algoritmos e Inteligência Artificial ultrapassa o campo tecnológico e se tornou um tema estratégico para o movimento sindical. Se Renato Rovai destacou os desafios da disputa pela informação em um ambiente dominado pelas plataformas digitais, José Vital chamou atenção para as profundas transformações que a Revolução Digital já produz no mundo do trabalho.

As reflexões apresentadas aos delegados e delegadas do 22º Congrenf reforçaram a necessidade de que a categoria petroleira acompanhe de perto essas mudanças e construa respostas coletivas para um cenário em rápida transformação, no qual tecnologia, comunicação e organização dos trabalhadores se tornam temas cada vez mais inseparáveis.