De acordo com levantamento do DIEESE, país registra 536 greves no primeiro semestre de 2025

O DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – apresentou um estudo sobre o panorama das greves ocorridas no Brasil no primeiro semestre de 2025, com a  identificação de suas principais características. O levantamento e análise do Sistema de Acompanhamento de Greves do DIEESE mostram que o número de greves do primeiro semestre de 2025 aumentou 16% em relação ao mesmo período de 2024, passando de 462 para 536. As greves no setor privado foram mais frequentes do que as do funcionalismo público.

Questões relacionadas à defesa de condições de trabalho, saúde e segurança e/ou contra o descumprimento de direitos estabelecidos em acordo, convenção coletiva ou legislação estavam nas pautas de 82% das greves.

Os dados analisados foram extraídos do Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG-DIEESE), que reúne informações sobre as mobilizações realizadas pelos trabalhadores brasileiros desde 1978 e conta, atualmente, com mais de 40 mil registros. As informações do SAG-DIEESE são obtidas por meio de notícias veiculadas em jornais impressos e eletrônicos da grande mídia e da imprensa sindical.

Nas empresas estatais, o aumento foi de 19 para 34 greves (79%) e nas empresas privadas, de 192 para 253 (32%). Por outro lado, as greves no funcionalismo público diminuíram de 251 para 219 (-13%). Assim, em 2025 – de modo diverso do ano passado – as greves na esfera privada predominam, ainda que de modo pouco pronunciado, sobre aquelas da esfera pública.

Mais de dois terços (70%) das greves no funcionalismo público ocorreram no nível administrativo municipal e cerca de metade (49%) foi deflagrada por profissionais da educação. Quase dois terços (63%) das pautas de reivindicações dessa esfera fazem menção ao reajuste de salários. A seguir – e significativamente – vêm as reivindicações por mais investimento e melhor administração dos serviços públicos (49%), os protestos contra os governantes (42%) e as demandas por melhores condições de trabalho (38%).

Nas empresas estatais, trabalhadores urbanitários foram responsáveis por 29% das greves deflagradas; trabalhadores das comunicações (majoritariamente dos Correios, mas também da Empresa Brasil de Comunicação), por 21%; e bancários, por 15%. Itens relativos às condições de trabalho compuseram 32% das pautas de reivindicações; necessidade de novas contratações, 21%; condições do local onde o trabalho é realizado, 21%; condições de segurança, 18%; e protestos contra os governos também estiveram presentes em 18%. Reivindicações salariais registram frequência menor que 15%. 

Por fim, na esfera privada, greves do setor de serviços ocuparam dois terços (66%) do total de mobilizações ocorridas. Trabalhadores em transportes – principalmente do transporte rodoviário coletivo urbano – foram responsáveis por 26% das paralisações e trabalhadores do turismo e hospitalidade – que envolve limpeza e conservação, preparo de refeições coletivas, portaria e recepção –, por 22%. Na indústria, os números das greves na construção e manutenção industrial superaram aqueles da indústria metalúrgica – 17% no primeiro caso e 9% no segundo. No conjunto das reivindicações das empresas privadas, a demanda pela regularização de salários em atraso foi a mais frequente (41%), seguida por questões relativas à alimentação (39%). O reajuste salarial veio em terceiro lugar de importância (26%).

As greves ao longo dos anos

Em números e qualidade, as greves desse primeiro semestre não destoam de um padrão que vem se mantendo desde 2016, pelo menos – e que deve continuar por prazo ainda indefinido. De lá até aqui, houve momentos em que o alarme por elas disparado foi maior – chamando a atenção para os sofrimentos cotidianos causados principalmente pelo atraso de salários. No entanto, ainda se está longe do cenário que parecia desenhar-se em 2012 ou 2013, quando esse tipo de ação parecia estar claramente em consonância com um enfrentamento geral e consciente das desigualdades vigentes no país.. A luta agora é claramente defensiva.

E a maior mudança – sempre apontada nos Balanços de Greve – é que neste momento posterior, a greve tornou-se o recurso último dos trabalhadores que, em sua atividade, deparam-se com situações de maior precariedade. Trabalhadores do cuidado nos serviços públicos – profissionais da educação e da enfermagem, em especial; eletricitários e carteiros, nas estatais; e terceirizados de todo o tipo nas empresas privadas. A importância das greves por “melhores condições de trabalho” – que reúne situações que vão desde a carência de insumos e ferramentas até o trabalho extenuante distribuído em longas jornadas – junta-se aos descumprimentos salariais na caracterização da vida laboral desses trabalhadores.

Mesmo a reivindicação por reajuste salarial, frequentemente, tem menos a ver com a luta por ganhos reais que com o fato, bem conhecido entre os servidores públicos, de que a depreciação do valor de seus salários, que se acumula há alguns anos, começa a assemelhar-se a um tipo de desconto ou atraso salarial. “Nós temos uma perda inflacionária que já supera os 30%, é como se a cada mês, todos os meses, nós deixássemos de receber um terço dos nossos salários” – nas palavras de um trabalhador.

Acesse o estudo completo aqui.