A insegurança do uso do LEO para os cancerígenos e a previdência

Usar Limites de Exposição Ocupacional como parâmetro para o controle da exposição dos trabalhadores a agentes cancerígenos é admitir a morte estatísticamente aceitável. É o que conclui o artigo A Insegurança do Uso do LEO para os Cancerígenos e a Previdência, publicado na edição 526 da revista Cipa, de julho e agosto de 2026.

“Buscar estabelecer limites ou limiares na normatização de agentes reconhecidamente cancerígenos (IARC-1), conforme a farta literatura dos manuscritos da IARC, destes últimos 30 anos, é ocultar o grande risco e perigo desses agentes, que ao serem absorvidos em qualquer quantidade por mínima que seja, podem causar mutações no DNA ou danos celulares que tem o potencial de evoluir para um câncer”, avalia o autor Remígio Todeschini, que é doutor em Psicologia Social e do Trabalho pela UnB (Universidade de Brasília) e atua na Fundacentro.

Dados da Organização Mundial da Saúde reforçam o alerta. “A OMS já alertava em 2010 que para 0,53 ppb (parte por bilhão) de exposição entre cem mil expostos ao benzeno, havia estimativa de um caso de leucemia/câncer”, completa.

Para fazer essa discussão, o especialista retoma informações do curso sobre diagnóstico e prevenção do câncer ocupacional da instituição em maio deste ano. Na ocasião, pesquisadores de diferentes órgãos mostraram o impacto de agentes cancerígenos, como radiação ultravioleta, radiações ionizantes, amianto, benzeno e sílica, no mundo do trabalho. As aulas voltam a ser disponibilizadas no canal da Fundacentro no YouTube após o período de Defeso Eleitoral.

Prevenção e subnotificação

Para prevenir o câncer ocupacional, é necessário eliminar ou substituir o agente cancerígeno. Se isso não for viável, deve-se impedir possíveis emanações por enclausuramento ou outras tecnologias para controle e monitoramento constante, inclusive de “emissões fugitivas, com identificação precoce de qualquer deterioração dos equipamentos”.

No entanto, a subnotificação, ao não reconhecer a relação do câncer com o trabalho, impede que se invista em medidas preventivas. O artigo coloca a questão em evidência ao destacar que a Previdência reconheceu 1.828.808 casos de câncer não laborais e 2.921 acidentários de 2015 a 2025. Mesmo quando se trata do mesotelioma, tipo de câncer que afeta a membrana que reveste a pleura (pulmões) e tem como principal causa o amianto, “o INSS concedeu 424 benefícios para câncer previdenciário e somente quatro casos laborais”. Já no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) foram 7.005 notificações de câncer relacionado ao trabalho.

“Essa insegurança potencializa os riscos, pois ao não serem reconhecidos, ocultam informações para correções no campo de SST. Contribuem para a insustentabilidade e desequilíbrio previdenciário com a sonegação do FAT/SAT [Fator Acidentário de Prevenção / Riscos Ambientais do Trabalho] e não suporte fiscal aos benefícios acidentários”, analisa Todeschini.

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Cristiane Oliveira Reimberg/Fundacentro