Abertura de exposição sobre os 25 anos da P-36 emociona público e transforma memória em compromisso com a vida

A memória do acidente da plataforma P-36 voltou a ocupar o centro do debate sobre segurança no trabalho e respeito à vida na abertura da exposição “P-36: O que mudou depois do acidente”, realizada pelo Sindipetro-NF. Mais do que um evento histórico, a noite foi marcada por emoção profunda, silêncio respeitoso e lembranças que seguem vivas nas famílias e nos trabalhadores da indústria do petróleo.

Entre os presentes estavam viúvas, filhos e netos dos petroleiros que morreram na tragédia, ocorrida em 15 de março de 2001 na Bacia de Campos. Vinte e cinco anos depois, as ausências continuam presentes — nos relatos, nos olhares e nos abraços que nunca mais puderam ser dados.

Uma cena de memória e silêncio

A abertura foi marcada por uma encenação teatral intensa e comovente, “Eles não eram só estatística”, interpretada pela atriz Adriana Medeiros e Rodri Mendes. Em um ambiente escuro, quase em silêncio absoluto, o cenário era simples e profundamente simbólico: 11 capacetes brancos alinhados no chão e um pano branco que lembrava o mar, evocando o lugar onde a maior plataforma de produção do mundo afundou.

Com pequenas lanternas iluminando apenas os próprios rostos, os atores conduziram o público por uma narrativa que recriava o momento do acidente — os ruídos, a tensão, o medo e os sentimentos que podem ter atravessado os trabalhadores nas horas finais.

A peça também trouxe à tona a dor que permanece nas famílias: a ausência dos abraços, das palavras e da presença cotidiana daqueles que nunca voltaram para casa.

Ao final da apresentação, o silêncio tomou conta do auditório. Um a um, os nomes dos petroleiros mortos foram lidos. A cada nome, uma vela era acesa diante dos capacetes, transformando o espaço em um memorial de luz e memória.

Foram lembrados os onze trabalhadores que perderam a vida no acidente:

  • Adilson Almeida de Oliveira
  • Charles Roberto Oscar
  • Emanoel Portela Lima
  • Ernesto de Azevedo Couto
  • Geraldo Magela Gonçalves
  • Josevaldo Dias de Souza
  • Laerson Antônio dos Santos
  • Luciano Cardoso Souza
  • Mário Sérgio Matheus
  • Sérgio dos Santos Souza
  • Sérgio Santos Barbosa

Para muitos familiares presentes, aquele momento foi impossível de conter. Lágrimas, abraços e olhares emocionados marcaram o fim da apresentação.

Debate: memória, responsabilidade e segurança

Ainda impactado pela encenação, o público acompanhou a formação da mesa de debate que reuniu o coordenador do Departamento de Saúde do Sindipetro-NF, Alexandre Vieira, a assistente social Maria das Graças Alcântara da Costa Rocha, o professor da UFF Marcelo Figueiredo e Luzineide Maria de Santana Lima, viúva do petroleiro Emanoel Portela Lima.

Vinte e cinco anos após a tragédia, considerada um dos maiores acidentes da indústria petrolífera brasileira, o encontro reafirmou que a dor das famílias e as lições técnicas do desastre permanecem no centro da pauta sindical.

Para Alexandre Vieira, a tragédia da P-36 não pode ser dissociada das escolhas feitas na gestão da produção.
“Infelizmente a gente luta contra grandes poderes do mundo. O que aconteceu na P-36 é porque alguém economiza em alguma coisa”, afirmou. Segundo ele, manter viva a memória do acidente é uma forma de proteger as futuras gerações de trabalhadores.

Maria das Graças, conhecida entre os trabalhadores como Gracinha, relembrou o papel de acolhimento realizado pelo sindicato logo após as explosões. Assistente social do Sindipetro-NF por 25 anos, ela relatou que precisou improvisar para registrar o que os trabalhadores viviam naquele momento.

“Eu precisava ali colaborar com o sindicato. E qual era o nosso olhar? Era tentar entender o que aconteceu”, contou. Com um caderno escondido, ela registrou relatos que poderiam ter sido silenciados. “A voz do trabalhador é que vai dizer o que estava acontecendo” – disse Graça.

Ela também lembrou que o acidente não terminou no naufrágio. Ela destacou a luta para emitir CATs (Comunicação de Acidente de Trabalho) por estresse pós-traumático para os sobreviventes que não conseguiram retornar ao mar. “Muitos deles não conseguiram voltar ao trabalho porque a relação de amizade e confiança se perdeu, se desestruturou. Essa foi uma das lutas: discutir a saúde mental dos trabalhadores.”

As falhas do sistema

O professor Marcelo Figueiredo trouxe ao debate uma análise técnica e crítica do desastre. Pesquisador das áreas de ergonomia, segurança e psicologia do trabalho, ele classificou o episódio como um “acidente industrial ampliado”.

Segundo ele, a estrutura organizacional e a forma como as decisões são tomadas podem criar barreiras para a segurança. Um dos problemas identificados foi o excesso de alarmes na plataforma, que teria contribuído para uma espécie de “opacidade do sistema”, dificultando a identificação da gravidade da situação.

Marcelo também destacou a distância entre quem toma decisões e quem opera os sistemas na prática.
“Existe uma persistência preocupante dessa distância entre o saber dos engenheiros e o saber dos operadores, que muitas vezes é subavaliado”, afirmou.

Para ele, prevenir acidentes exige incorporar o conhecimento que nasce no cotidiano do trabalho. “É na ponta do processo que emerge o saber fundamental para evitar tragédias.”

A voz das famílias

Entre as falas mais emocionantes da noite esteve a de Luzineide Maria de Santana Lima, viúva do petroleiro Emanoel Portela Lima. Pedagoga e gestora escolar há mais de duas décadas, ela relembrou que muitos trabalhadores já percebiam riscos na operação da plataforma.

“Os riscos vieram junto com a ganância pela produção e pela riqueza. Mas foi esquecido que atrás daquela maior plataforma do mundo existiam vidas”, disse.

Ela também destacou o gesto de coragem da brigada de emergência, formada por trabalhadores que morreram tentando salvar a unidade. “Enquanto todos evacuavam, eles estavam indo lá para cima para ver o que estava acontecendo”, lembrou.

Para Luzineide, o tempo não apaga as marcas. “Essas cicatrizes ainda são profundas. Mas a luta do sindicato por segurança é muito importante para resguardar a vida.”

Um legado de luta

Apesar da dor que atravessa a memória da P-36, o debate também destacou conquistas que nasceram da mobilização dos trabalhadores após o acidente. Entre elas estão a inclusão do Direito de Recusa nos acordos coletivos, a participação de representantes dos trabalhadores nas comissões de investigação de acidentes, e a contribuição direta para a criação da NR-37, norma que regulamenta a segurança nas plataformas de petróleo.

Ao final da noite, a sensação compartilhada entre trabalhadores, familiares e especialistas era clara: lembrar não é apenas um gesto de homenagem. É também um compromisso. Porque, como repetiram várias vezes durante o evento, nenhuma produção pode valer mais do que uma vida.