Texto Apócrifo*
Uma crônica sobre chefes, líderes e o curioso fenômeno de normas que sopram para onde o vento da conveniência manda
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Dizem que na Ilha de Ferro todos são iguais. E é verdade — com a pequena ressalva de que alguns são mais iguais que os outros, como já ensinava Orwell em outro contexto. Neste pedaço de metal perdido no mar, existe uma matemática curiosa: as lentes só apontam para um lado. Sempre o mesmo. Nunca para os outros — esses, convenientemente, não entraram em arquivo.
Na Ilha, há um fenômeno fascinante que os acadêmicos ainda não catalogaram: a seletividade normatizatória. Trata-se da rara capacidade de uma liderança aplicar regras, padrões e procedimentos com a precisão cirúrgica de quem escolhe apenas os alvos que lhe convêm. Os demais — os escolhidos, os protegidos, os convenientes — gozam de uma espécie de imunidade diplomática não escrita. Podem tudo. Fazem tudo. E o que é mais notável: o fazem às claras, sem disfarce, sem pudor — e ainda assim, nada lhes acontece.
Já o outro — aquele cujo único crime é ter a ousadia de manter laços com o sindicato — esse é fotografado. É flagrado. É perseguido por lente. Não por fazer algo diferente dos demais, mas por ser quem é. A câmera que o persegue não busca irregularidade; busca justificativa. E como toda caça às bruxas que se preze, a sentença vem antes do julgamento e a prova é fabricada depois do veredito.
O detalhe, porém, é cruelmente cômico. Sabe para que servem as fotografias? Para provar que o autor destas linhas faz exatamente o mesmo que todos os demais fazem. Ou seja: investiram tempo, organização, logística e criatividade — para documentar que um trabalhador se comporta como trabalhador. Que um ser humano age como ser humano. Que um profissional produz como profissional. Não riram ainda? Deveriam. É o tipo de descoberta científica que merece prêmio Nobel: empregado trabalha. Grafitem a parede.
E não para por aí. A vigilância é tão minuciosa, tão obsessiva, tão devotada, que sabem — sabem com precisão estatística — quantas vezes o autor vai ao banheiro por dia. Não estou falando de metafísica. Trata-se de contagem real, registrada, observada. Um adulto vigiando as idas de outro adulto ao vaso sanitário. Se não fosse trágico, seria roteiro de comédia pastelão. Se não fosse assédio, seria patológico. O trabalhador produz, entrega, executa — e enquanto isso, alguém, em algum canto, conta suas idas ao mictório com a dedicação de um estatístico britânico catalogando pássaros.
A ironia, porém, tem um contorno que merece destaque — e aqui o deboche se aproxima da psicologia. Estamos falando de homens que se apresentam ao mundo como a própria encarnação da masculinidade. Os que discursam sobre honra, respeito, virilidade, “homem de verdade”. Os que exalam alfa pela manhã e testosterona à tarde. Ora, não seria razoável imaginar que tais espécimes de virilidade tivessem ocupações mais… robustas? Mais viris? Mais dignas de quem se assume como modelo de masculinidade? E no entanto, gastam o dia fotografando outro homem e contando suas idas ao banheiro. Não é ironia — é poesia. A espécie de poesia que só a Ilha de Ferro consegue produzir: o machão que vira paparazzo de colega. O alpha que vira vigilante de mictório. O exemplo de masculinidade que não encontra nada melhor para fazer com sua tarde do que registrar quantas vezes o subordinado levanta da cadeira.
Não há preconceito aqui contra ninguém — apenas constatação irônica. O que se questiona não é a orientação de ninguém, mas a incoerência. Quem prega masculinidade deveria praticar masculinidade. E vigiar as idas ao banheiro de outro homem não é, por nenhuma definição existente, um ato de masculinidade. É um ato de obsessão. E obsessão, como se sabe, é o que sobra quando a competência falta.
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Nesta Ilha, opera-se uma gama curiosa de impunidades. Gama, no sentido físico, é radiação que atravessa barreiras — atravessa paredes, atravessa normas, atravessa éticas, atravessa limites. Na Ilha de Ferro, há quem viva em uma gama permanente de atravessamento: atravessam padrões como se não existissem, atravessam regras como se fossem sugestões, atravessam a linha entre o permitido e o proibido com a naturalidade de quem nunca foi barrado. E o que é mais intrigante: atravessam e são promovidos por isso. Não por competência técnica, não por retidão moral, não por resultados honestos — mas pela refinada arte de distorcer a realidade e as regras em benefício próprio. Isso, na Ilha, chamam de “gestão estratégica”. No resto do mundo, chama-se outra coisa. A gama de impunidade que opera ali é tão ampla, tão penetrante, que já não atravessa apenas normas — atravessa a própria credibilidade institucional.
E há, também, uma espécie de branco dominante na paisagem. Branco no sentido de fachada, de aparência, de superfície impecável que esconde o que vem por baixo. Curiosamente, é a cor que mais suja com facilidade — basta um toque. Os especialistas em branco da Ilha são mestres em manter a fachada imaculada enquanto o interior é outra história. São os do “não vi, não sei, não fui eu”. Os que assinam embaixo, desde que não apareçam em cima. Os que concordam em particular e divergem em público. Os que empurram a culpa para baixo e puxam o mérito para cima. Branco por fora, como diria o poeta, mas o que vem por dentro é problema de quem olhar de muito perto. Na Ilha, vive-se uma brancura de fachada — tudo parece limpo, tudo parece em ordem, tudo parece correto — até que se raspa a tinta e descobre-se o que a camada de cobertura esconde.
E permeando tudo, há um símbolo que merece menção especial: o chicote do Beto Carrero. Não o chicote de couro, claro — os tempos modernos exigem discrição. O chicote aqui é metafórico, mas a marca que deixa é bem real: pressão injusta, cobrança desproporcional, humilhação calculada, perseguição metódica. É o chicote que estala no lombo de quem produz, que racha as costas de quem executa, que marca a pele de quem ousa ser diferente. O chicote do Beto Carrero é, na Ilha, uma instituição não escrita — um sistema de gestão paralelo, não oficial, mas profundamente vigente. E enquanto o chicote estala nas costas de quem trabalha, encontra-se sempre tempo — e coragem — para solicitar “voltinhas” a trabalhadoras. O detalhe é emblemático: quem não respeita a dignidade de quem trabalha, tampouco respeita a dignidade de quem trabalha. O desrespeito, quando se instala, não escolhe gênero — escolhe vítimas. E o chicote, quando vira cultura, não escolhe alvo — escolhe momento.
O mais interessante desse quadro é o desfecho. Os personagens que operam nesta gama de impunidade, que se escondem por trás desta brancura de fachada, que empunham este chicote simbólico — não são punidos. São reconhecidos. São promovidos. Recebem prêmios de desempenho, elogios em público, acessos e privilégios. Não porque fazem o que é correto — isso seria ingenuidade. Mas porque dominaram a verdadeira competência valorizada na Ilha: a arte de gerenciar não o trabalho, mas as aparências; não as metas, mas as percepções; não os processos, mas as relações. São, cada um à sua maneira, especialistas em construir carreiras sobre os escombros das carreiras que destruíram.
Eis a grande lição da Ilha de Ferro: ali, não se sobe por mérito. Sobe-se por conveniência. Não se permanece por competência. Permanece-se por lealdade — não à empresa, não à ética, não ao coletivo, mas à teia de cumplicidades que sustenta o sistema. Romper a teia é o pecado imperdoável. E o autor destas linhas, sem que precise se apresentar, cometeu esse pecado: ousou olhar para o sistema e chamar pelo nome o que viu. Ousou manter laços com quem representa os trabalhadores. Ousou ser diferente — e descobriu que, na Ilha, ser diferente é o único crime que não admite perdão.
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O Que Não Se Vê
Há algo, porém, que os operadores da gama de impunidade, os guardiões da brancura de fachada e os empunhadores do chicote simbólico ignoram em sua soberba: o silêncio do que documenta não é fraqueza — é contenção.
O autor destas linhas não fotografa colegas. Não arma ciladas. Não fabrica provas. Mas documenta. Documenta por profissionalismo. Documenta por memória. Documenta porque aprendeu, a duras custas, que na Ilha de Ferro a verdade só existe se estiver escrita, datada e arquivada. E nesses registros — que descansam em paz, sem pressa de ver a luz — há cenas que os protagonistas gostariam que fossem esquecidas. Condutas impróprias, decisões irregulares, padrões descumpridos, assédios cometidos, metas fraudadas, acompanhamentos inexistentes. Tudo registrado. Tudo datado. Tudo assinado pelo tempo.
A intenção nunca foi usar. Nunca. O autor não precisa destruir ninguém para existir. Não precisa expor ninguém para provar valor. A documentação nasceu como defesa — como registro profissional do que faz, de como faz, de quando faz. E, incidentalmente, como registro do que os outros fazem quando acham que ninguém vê. Mas o autor escolheu o caminho da contenção. Preferiu a crônica ao depoimento. A ironia à denúncia formal. A palavra ao processo.
Isso, porém, não é fraqueza. É escolha. E escolha, como se sabe, pode ser revista — especialmente quando a outra parte decide que contenção é licença para abusar.
Há uma diferença entre quem precisa destruir o outro para subir e quem pode destruir e escolhe não fazê-lo. Essa diferença chama-se caráter. E é exatamente por tê-lo que o autor oferece, neste texto, um aviso que não é ameaça — é cortesia:
Sou muito melhor do que vocês pensam. Mas, se precisar, sou muito pior do que são capazes de imaginar.
Melhor, porque contém. Porque respeita. Porque prefere o diálogo ao depoimento, a crônica ao inquérito, a ironia à denúncia formal. Pior, porque o que está guardado — e está tudo guardado — não precisa de retórica para falar. Precisa apenas de data e destinatário. E aí, nenhuma gama de impunidade atravessará, nenhuma brancura de fachada se manterá imaculada, e o chicote, enfim, será devolvido às mãos de quem nunca deveria tê-lo largado.
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De Chefes e Líderes
Há uma diferença fundamental entre as duas figuras, embora a Ilha de Ferro trate-as como sinônimos:
Chefe é qualquer equívoco institucional com assinatura e crachá. Não exige talento, não exige caráter, não exige visão. Exige apenas que alguém, em algum momento, por algum motivo que a história julgará, decida entregar poder a quem não deveria tê-lo. O Brasil, e particularmente a Ilha, é pródigo em chefes. Há excesso de oferta.
Líder é outra coisa. Líder não é cargo — é condição. Líder é aquele que carrega a equipe, não que a esmaga. Que corrige em particular e reconhece em público. Que aplica a norma a si mesmo antes de exigir dos outros. Que não precisa de chicote — simbólico ou não — porque conduz pelo exemplo, não pelo medo. Líder é quem faz com que as pessoas queiram seguir, não que as force a arrastar. E, sobretudo: líder não conta as idas ao banheiro dos subordinados. Líder não fotografia quem não precisa ser fotografado. Líder não confunde gestão com vigilância.
A tragédia da Ilha de Ferro não é ter chefes. É confundir chefes com líderes. É promover o chicote e esquecer o condutor. É premiar quem distorce e punir quem documenta. É fotografar o injustiçado para condená-lo, enquanto o injustiçador posa para a galeria da honraria.
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Epílogo: O Silêncio Que Grita
Esta crônica não assina nome. Não precisa. Quem conhece a Ilha, reconhece os conceitos. Quem viveu as cenas, sabe os contextos. E quem se reconhece na gama de impunidade, na brancura de fachada, no empunhar do chicote — esses saberão que foram vistos. Não pela lente que condena, mas pela palavra que ilumina.
O objetivo aqui não é destruir. É acordar.
Que cada trabalhador que reconhecer estas linhas encontre a coragem de denunciar. Que cada padrão descumprido pela liderança seja registrado, relatado, exposto. Que a diferença entre chefe e líder deixe de ser teoria e passe a ser critério de gestão.
E que os operadores da gama, os guardiões da brancura e os empunhadores do chicote leiam com atenção. Não esta crônica — ela é apenas literatura. Mas o que não está escrito aqui. O que não foi publicado. O que descansa, paciente, no silêncio de quem documentou sem nunca precisar atacar — mas que, se precisar, pode atacar com a precisão de quem nunca deixou de registrar.
A Ilha de Ferro não mudará porque alguém escreveu uma crônica. Mas talvez mude porque, ao ler estas linhas, alguém descubra que não está sozinho — e que o silêncio do colega ao lado não é vazio, é arsenal.
O chicote só estala enquanto ninguém o segura. As fotografias só condenam enquanto ninguém contrafotografa. As contagens de banheiro só humilham enquanto ninguém pergunta ao contador por que ele conta.
A pergunta, agora, não é mais se o autor destas linhas vai reagir. A pergunta é: quando?
E essa resposta, meus caros operadores da gama, guardiões da brancura e empunhadores do chicote, não depende de vocês.
Depende apenas de até onde vocês insistirem em achar que contenção é fraqueza.
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Esta crônica é uma obra de ficção literária. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, chefes ou líderes, operadores de gamas de impunidade, guardiões de brancuras de fachada, empunhadores de chicotes simbólicos, contadores de idas ao banheiro ou paparazzi de subordinados, é mera coincidência — como coincidem, aliás, todas as verdades que ninguém ousa dizer em voz alta.
* Contribuições não assinadas são aceitas desde que o autor se identifique para o Sindipetro-NF — que manterá sigilo sobre a autoria.