Filósofa apresentou reflexões do livro “Ninfa Morta” e defendeu a escrita, a organização coletiva e o feminismo como instrumentos de transformação da sociedade
O Sindipetro-NF promoveu, na noite de quinta-feira (27), em sua sede, no Centro de Macaé, uma programação especial do Agosto Lilás, mês de conscientização e enfrentamento à violência contra as mulheres. O evento reuniu reflexão, literatura, teatro e música, tendo como destaque a palestra da filósofa e escritora Marcia Tiburi, autora do livro Ninfa Morta — Uma história do ódio às mulheres.
O evento teve início com saudações das diretoras do Sindipetro-NF, Carmem Lucia da Silva, Jancileide Morgado, Eliane Pinto e Bárbara Bezerra, além do Coordenador da Entidade Sérgio Borges, que destacou a importância da campanha Agosto Lilás diante dos recentes casos de violência contra as mulheres registrados na região.
Serginho afirmou que o enfrentamento ao machismo e ao feminicídio é uma responsabilidade de toda a sociedade, especialmente dos homens, que devem combater atitudes e discursos machistas no cotidiano. Ele também encorajou as mulheres a denunciarem os primeiros sinais de agressão e colocou o Sindicato à disposição para acolher, orientar e ampliar esse debate. Em seguida, uma esquete do Coletivo Artístico Clara retratou duas cenas fortes de violência contra a mulher, que deixaram impactados os presentes.
A palestra foi mediada pela diretora Carmem Lucia e logo no início Márcia Tiburi apresentou algumas das principais questões discutidas na obra, que investiga como a cultura, a literatura, as artes e outras formas de produção simbólica contribuíram, ao longo da história, para a objetificação, o silenciamento e o apagamento das mulheres.
A filósofa explicou que a figura da “ninfa morta” representa a transformação da mulher em objeto idealizado e subordinado ao olhar masculino. Nesse sistema, segundo ela, o homem ocupa o lugar de sujeito e de valor, enquanto a mulher é tratada como objeto e como um “não valor”.
“A ninfa morta nada mais é do que uma imagem emblemática, objetificada e idealizada, que serve ao prazer e ao olhar masculino”, afirmou.
Da literatura à naturalização da violência
Márcia Tiburi mostrou como a imagem da mulher jovem, frágil, adoecida ou morta foi transformada em objeto de contemplação e desejo, especialmente na literatura e na pintura do século XIX. Para a escritora, essas representações não são inocentes: elas ajudam a formar uma cultura que retira das mulheres a condição de sujeitos de suas próprias vidas.
A filósofa lembrou que sua inquietação sobre o tema começou ainda na infância, ao conhecer a história de Branca de Neve. Enquanto muitas pessoas enxergavam apenas um conto de fadas, ela questionava por que os anões mantinham a personagem responsável por todo o trabalho doméstico e, depois de sua morte, colocavam seu corpo em um caixão de vidro para ser contemplado.
“Eu me perguntava: por que eles gostam de ficar olhando para uma mulher morta dentro de um caixão de vidro?”, recordou. A pergunta se tornou um dos pontos de partida para a investigação desenvolvida em Ninfa Morta.
A reflexão conduzida por Tiburi relaciona essas representações culturais à construção de uma sociedade que romantiza a submissão feminina e, em suas expressões mais graves, naturaliza diferentes formas de violência contra as mulheres, inclusive o feminicídio.
Mulheres precisam contar a própria história
Outro ponto central da palestra foi o silenciamento histórico das mulheres e a proibição, explícita ou simbólica, de que elas construíssem as próprias narrativas. Tiburi destacou que o apagamento dos nomes, das vozes e das biografias femininas também é uma forma de exercício do poder patriarcal.
Para ela, as mulheres da atualidade têm a responsabilidade de escrever e disputar os espaços onde são produzidos os sentidos que organizam a sociedade. “Não é só escrever para um conjunto de pessoas, é escrever para construir o texto do mundo. Quem faz o texto governa. A lei é texto, a ciência é texto, a literatura é texto e as narrativas são textos. Os textos orientam o pensamento”, ressaltou.
Nesse sentido, a filósofa afirmou que a produção intelectual feminista, contracolonial e decolonial tem colocado em xeque estruturas de poder historicamente controladas por homens brancos. A presença cada vez maior das mulheres na produção de conhecimento, segundo ela, permite questionar as versões oficiais da história e construir novas possibilidades de organização social.
“O nosso projeto, como mulheres feministas, é justamente governar. As mulheres precisam mandar no mundo com carinho e respeito”, defendeu.
Patriarcado, capitalismo e exploração do trabalho feminino
Em sua análise, Tiburi também relacionou patriarcado, capitalismo, racismo, neoliberalismo e fascismo. Para a filósofa, o patriarcado é um sistema simbólico que produz e reproduz discursos de ódio contra as mulheres, atingindo de maneira ainda mais intensa aquelas que se organizam e se afirmam como feministas. “As mulheres são odiadas, mas as mulheres feministas são odiadas em dobro”, observou.
A escritora defendeu que o enfrentamento ao machismo precisa caminhar ao lado da luta de classes, uma vez que as mulheres também são trabalhadoras e sofrem uma exploração que ultrapassa o espaço profissional. Além da desigualdade presente no mercado de trabalho, elas continuam assumindo, de forma desproporcional, as tarefas domésticas e de cuidado.
“As mulheres são exploradas pelo sistema em geral, mas também dentro de casa, pelo marido, companheiro, namorado, filho ou pai. A mulher é colocada para trabalhar como se o serviço doméstico fosse algo natural e como se o homem pudesse chegar, sentar e ser servido”, criticou.
Para Tiburi, a transformação dessa realidade exige que os homens avancem em seus processos de conscientização e assumam efetivamente a responsabilidade de combater o machismo, inclusive dentro das organizações e dos movimentos progressistas.
Cultura, acolhimento e resistência
A programação contou ainda com debate, lançamento e sorteio de livros de Marcia Tiburi. O encerramento teve coquetel e apresentação da cantora e compositora baiana Nanny Sanfer.
Ao reunir formação política, reflexão filosófica e manifestações artísticas, o evento reafirmou a importância da organização coletiva no enfrentamento à violência de gênero. Márcia Tiburi destacou que, apesar do medo produzido pela violência patriarcal, as mulheres encontram na coragem e na união caminhos para transformar a sociedade.
“A gente sabe que tem umas às outras e que o caminho é construir uma sociedade emocionalmente, politicamente e democraticamente mais saudável. Podemos e devemos ter a utopia prática e diária da construção de um mundo melhor”, concluiu.