Nascente 1177

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[VERSÃO COMPLETA EM PDF DISPONÍVEL NO FINAL DA PÁGINA]

 

EDITORIAL

Luta pra cima de Luna

O Sindipetro-NF não tem razão alguma para ver com bons olhos a chegada de um general para o comando da Petrobrás — que remete, inclusive, aos tempos nefastos da Ditadura Civil-Militar brasileira do pós-1964. Muito especialmente sendo, este, alguém que se presta a compor o generalato tresloucado do governo Bolsonaro.

Mas é preciso pontuar bem a questão: Silva e Luna não será melhor ou pior do que Castello Branco (de triste memória) apenas por ser general. Será melhor ou pior de acordo com as suas ações à frente da empresa. Nem todos os militares são entreguistas como Bolsonaro. Muitos, honrados, souberam ver na Petrobrás o papel estratégico que a companhia tem para a soberania e o desenvolvimento do país.

O modo como, especialmente o Exército, se alinhou à política bolsonarista, causa desconforto em setores mais sérios, democráticos e nacionalistas da própria corporação.

Os trabalhadores organizados aprenderam, pelo menos desde o século XIX, que a história não se assiste, a história se faz na luta. De modo que independentemente de quem esteja na presidência da Petrobrás e no seu Conselho de Administração, nada substituirá a mobilização da categoria. Quando muito, tem-se uma maior abertura para o diálogo — que é o que esperamos de Silva e Luna e de qualquer presidente da companhia, em respeito às representações daqueles que de fato fazem a empresa existir, que são os petroleiros e as petroleiras.

De menor importância, para o NF, tem o chilique do mercado com a troca de comando na empresa. Desses gafanhotos especuladores não se espera outra coisa, assim como dos seus ventríloquos na grande imprensa.

O que importa é mantermos o foco: a luta contra as privatizações, contra o desmonte da Petrobrás e pelos direitos de todos os trabalhadores e de todas as trabalhadoras. Sigamos na luta!

ESPAÇO ABERTO

A quem a Petrobrás deve servir?

Tezeu Bezerra*

A grande disputa e o desespero na Petrobrás não tem nada a ver com a Record e os supostos 100 milhões. A disputa é militares X Paulo Guedes (mercado financeiro). Nós temos acompanhado de perto essa disputa. Paulo Guedes é despresivelmente sem compromisso com o povo, defensor de uma agenda liberal ao extremo. No entanto, como Bolsonaro está perdendo apoio popular devido a não renovação do auxílio emergencial e os sucessivos aumentos de preços dos combustíveis, tem tentado se mostrar sensível perante os caminhoneiros.
Do outro lado hoje nós temos uma “grande mamata” (termo usado pela direita para classificar o serviço público) em todas as estatais e no estado brasileiro, com generais, almirantes e brigadeiros colocados em conselhos, diretorias e gerências para ganharem altas remunerações — e com bônus que eles mesmos criaram nos últimos tempos.

Na própria Petrobrás, desde a saída da Dilma, o pessoal que iria acabar com a “mamata do PT” criou um bônus anual, para seus diretores e presidente, que chega a valores milionários. E, detalhe, colocando várias pessoas que não são de carreira e sem experiência para cargos de alta gestão dentro da empresa.

Os militares estão tentando ganhar mais espaço, porém o mercado, que fala pela boca da grande mídia, ficou morrendo de medo de que, com a saída do Castelo Branco, suspendessem as privatizações que estão acontecendo nas refinarias e plataformas da empresa e acabassem como o PPI, que aumenta os combustíveis de acordo com a variação internacional do dólar e do petróleo.

O enlouquecimento da mídia e do mercado foi o medo do fim do PPI e das privatizações. Ninguém debate o principal: “A quem a Petrobras deve servir?”. Ao povo brasileiro ou ao mercado financeiro? Ela produz, refina e distribui no Brasil, para que ter paridade internacional se produzindo em real? A quem interessa a venda das refinarias, já que isso é o que possibilita o Brasil não ter PPI?

Neste cenário, cabe a nós, petroleiros e petroleiras, lutar. E é o que faremos!

* Coordenador geral do Sindipetro-NF.

 

GERAL

Entrevista / Tezeu Bezerra

Luna não muda luta petroleira

Vitor Menezes / Da Imprensa do NF

A categoria petroleira manterá a sua agenda de lutas contra as privatizações, o desmonte da Petrobrás, os direitos dos petroleiros e petroleiras e, especialmente nesta pandemia, pelo cumprimento de procedimentos de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus. Os abalos midiáticos provocados pela troca na presidência da Petrobrás não alteram os passos previstos de mobilização dos trabalhadores e das trabalhadoras. A avaliação é do coordenador geral do Sindipetro-NF, Tezeu Bezerra, que nesta entrevista ao Nascente avalia as mudanças na companhia, o perfil de Silva e Luna e o papel do sindicato e da FUP neste momento.

Nascente – Na visão do Sindipetro-NF, o que muda na Petrobrás com a troca na presidência da empresa?
Tezeu – Na verdade, pelo que estamos vendo, a política de preços, a PPI (Política de Paridade Internacional), assim como a política de privatizações, aparentemente não mudariam. O que muda com a saída do Castello Branco é o enlouquecimento do mercado financeiro, com uma insegurança grande por parte do mercado financeiro em relação a essa mudança. Vai caber à FUP e aos sindicatos atuar neste meio de campo para tentar jogar um espírito mínimo nacionalista dentro da Petrobrás. É injustificável, tanto no que tange ao povo quanto no que tange ao resultado operacional da empresa, na questão financeira mesmo, a venda das refinarias e de várias plataformas. É isso que a gente vai tentar mostrar para esse novo presidente. Com o Castello Branco não existia nenhum tipo de abertura para isso. A mudança, na prática, vai ser mais em uma tentativa da Federação e sindicatos de mudar essa perspectiva, que hoje é péssima, junto ao novo presidente e, talvez, junto a novos conselheiros que venham por aí.

Nascente – O que sabemos até o momento sobre o histórico do general Silva e Luna, em Itaipu, na relação com os trabalhadores?
Tezeu – O que a gente sabe é que ele é um cara de mais diálogo, tem um histórico em Itaipu de mais diálogo, porém está alinhado com o governo Bolsonaro. Então, ao mesmo tempo, a linha do governo Bolsonaro, a gente viu isso claramente com o Castello Branco, é uma linha de não diálogo, uma linha de imposição. Então a gente vai ter que esperar para ver qual é o comportamento dele. Não temos boas perspectivas, naturalmente, por se tratar desse governo, mas tanto o Sindipetro-NF quanto a FUP vão tentar, sim, um diálogo porque temos que mostrar que o caminho que está sendo feito vai levar ao fim da Petrobrás. Então a gente tem que mudar isso.

Nascente – Como fica a agenda de mobilizações chamada pela FUP e a luta contra as privatizações?
Tezeu – A agenda de mobilizações não muda. A greve, em si, foi suspensa provisoriamente pelo pessoal da Bahia, mas em todo o Brasil o pessoal vai continuar fazendo as assembleias e vai continuar caminhando para mobilizar a categoria, em defesa dos nossos direitos, em defesa da Petrobrás, contra as privatizações. Não muda nada em relação à agenda de luta.

Nascente – A pandemia tem colocado obstáculos para as mobilizações, como o sindicato pretende superar esse momento e construir, por exemplo, uma greve?
Tezeu – Os trabalhadores já mostraram que são capazes de inovar. O sindicato tem inovado, com setoriais online, com conversas com a categoria, a própria organização de grupos de whatsapp. Então todo esse cenário tem sido bem concreto em relação aos trabalhadores e trabalhadoras da Petrobrás. A gente vai fazer um seminário de greve, vamos anunciar nos próximos dias a data, vamos fazer assembleias para chamar o estado de greve. Tivemos uma participação muito boa, de mais de 600 trabalhadores nessa última rodada de assembleias, que foi a primeira para aprovar o manifesto e o estado de assembleia permanente, e nós vamos inovar e buscar junto à categoria os passos para fazer essa organização e mobilização. Não tenho dúvida de que a categoria petroleira, com certeza, vai dar um show e vai, mais uma vez, partir para a luta. Isso a gente sabe fazer e vai fazer.

 

Incêndio fere trabalhador na P-48

Um incêndio no último dia 20, na P-48, deixou gravemente ferido o petroleiro Benedito Candido Filho, 50 anos, da empresa Estrutural. O trabalhador sofreu queimaduras no pescoço, ombros, braços e costas. O atendimento aeromédico chegou cerca de 2h depois do acidente. Houve primeiros socorros no local, seguido de desembarque. O acidente ocorreu próximo ao slop da embarcação, onde estava acontecendo corte e solda. A brigada da plataforma necessitou de cerca de 1h30 para debelar o incêndio, conseguindo com sucesso evitar que o fogo saísse de controle. O sindicato integra a comissão de investigação e acompanha a recuperação da vítima.

 

Covid-19: Risco deve ser informado no ASO

O Sindipetro-NF orienta os petroleiros e petroleiras a incluírem, nas observações anexadas ao ASO (Atestado de Saúde Ocupacional), o registro de que estão expostos ao risco de contaminação pelo novo coronavírus. O apontamento tem importância especial em razão da negligência da Petrobrás na prevenção à covid-19. De acordo com o coordenador do Departamento de Saúde da entidade, Alexandre Vieira, o registro da informação é um direito do trabalhador e da trabalhadora, assim como o de qualquer outro risco. A entidade disponibiliza (is.gd/anexo_aso) um modelo de anexo ao ASO para que as informações sobre riscos sejam especificadas.

 

Direito de Recusa nos treinamentos

Desde o ano passado o Sindipetro-NF denuncia a ocorrência de cursos e treinamentos desnecessários, alguns deles que tiveram validade prorrogada pela Marinha, que a Petrobrás insiste em cobrar, submetendo os petroleiros e petroleiras à exposição desnecessária ao risco de contaminação pelo novo coronavírus.

O sindicato denuncia que a empresa descumpre documento com recomendações da própria companhia — como, por exemplo, a de não realização de cursos que impliquem em aglomerações e em dispensa do uso de máscaras. O sindicato orienta a categoria a exercer o Direito de Recusa e a não participar de treinamentos que exijam estas condições de risco. Os casos devem ser relatados para o e-mail de denúncias da entidade: [email protected]

 

CURTAS

Marítimos

A Bacia de Campos está na iminência de manter 22 plataformas em condições de extrema vulnerabilidade, caso não sejam atendidas as reivindicações de marítimos que estão próximos do fim do contrato, no dia 13 de março. A empresa Infotec, vencedora de licitação da Petrobrás na terceirização de 115 trabalhadores como oficiais de náutica, mestres de cabotagem e marinheiros que atuam nas plataformas, tenta rebaixar remunerações e benefícios dos empregados. Mais em is.gd/maritimos.

Kempetro

A diretoria do Sindipetro-NF se reuniu nesta terça, 23, com a diretoria do Senge-RJ (Sindicato dos Engenheiros) e está solidária à paralisação dos trabalhadores da Kempetro Engenharia Ltda, que atua em Macaé, marcada para os dias 1º e 2 de março, aprovada em assembleia realizada também ontem. A categoria denuncia que a empresa está mantendo a redução nas remunerações, sem qualquer benefício ou acordo.

Resultados

Em artigo na Carta Capital, o pesquisador do Ineep, Rafael Rodrigues da Costa, analisa os resultados divulgados pela Petrobrás. “Em um ano marcado pela maior crise do século no setor, a Petrobras só conseguiu sobreviver aproveitando-se das suas oportunidades de mercado nas exportações de petróleo cru e derivados, o que a fez aumentar não apenas a sua produção de petróleo como também a utilização das suas refinarias”. Íntegra em is.gd/carta_ineep.

Luto

O petroleiro aposentado Aderaldo André dos Santos, 67 anos, morreu na quarta, 24, vítima da Covid-19. Aderaldo morava em Barra de São João e estava internado na Clínica São Lucas, em Macaé. Filiado ao sindicato desde 1998, o petroleiro atuou durante muitos anos no Pier de Imbetiba e no Parque de Tubos. O Sindipetro-NF manifesta as condolências aos colegas de trabalho, amigos e familiares do petroleiro.

NORMANDO

Abandonados

Normando Rodrigues*

Quarenta milhões de brasileiros passando fome, 250 mil mortos por Covid-19, à média de 1,5 mil mortes por dia. No ritmo atual da vacinação levaremos 50 meses para imunizar a população, e até lá novas variantes do vírus poderão tornar todo o esforço inútil.

Em meio a esse quadro, qual a prioridade de Bolsonaro? Vender a Eletrobrás e fazer a Reforma Administrativa!

É bom para você que o estado brasileiro encolha? Que a energia elétrica em sua casa dependa só de uma empresa privada? Que o governo possa demitir funcionários públicos? O Deus mercado diz que sim.

Mitologia

Nunca, em lugar nenhum do planeta,  a iniciativa privada garantiu educação para todos, saúde para todos, habitação para todos, água e esgoto para todos, vacina para todos, ou outros direitos. A não ser para quem possa pagar.

Claro que os empresários podem garantir esses direitos, mas como mercadoria que deve dar lucro! Nessa lógica, escola, medicina, casa, e até o combate ao coronavírus, tudo vira “mercadoria”. Quem pode pagar pela mercadoria, tá bem. Para quem não pode Bolsonaro diz “não posso fazer nada”.

Agora preste bastante atenção: quando o governo anuncia a Reforma Administrativa, é para poder gastar menos exatamente com educação, saúde, habitação, e outros direitos.

Wal do açaí

O grande objetivo de Bolsonaro com a reforma administrativa é o fim da estabilidade dos servidores públicos. Criará uma política de rotatividade de pessoal nos cargos, para manter os salários baixos e reduzir o quadro de pessoal, além de poder nomear livremente os apadrinhados, sem concurso público.

A lógica é administrar o estado como uma empresa da famiglia, que em lugar de se preocupar em garantir direitos do cidadão deve mirar o lucro.

Uma última lembrança: o fim da estabilidade acaba com a independência do servidor e, consequentemente, impede que possa contrariar os interesses dos poderosos e ordens absurdas como a de não comprar vacina apenas porque oriunda da China.

Teologia

Junto com a Reforma Administrativa, Bolsonaro emenda a PEC 186, para extinguir o piso mínimo de investimentos na Educação e Saúde. Temer congelou por 20 anos, mas para o Deus-Mercado não foi o bastante.

E Bolsonaro faz tudo isso com apoio popular. Assim como Mussolini e Hitler, ele entrega ao Deus-Mercado algo que só o fascismo pode oferecer: o apoio dos trabalhadores à destruição dos direitos dos trabalhadores.

* Assessor jurídico do Sindipetro-NF e da FUP.
[email protected]

 

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