Nascente 1229

Compartilhar no facebook
Compartilhar no google
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

[VERSÃO COMPLETA EM PDF DISPONÍVEL NO FINAL DA PÁGINA]

 

A SEMANA

Editorial

O falocentrismo que fala pelo “Mamãe, falei”

Não poderia ser em momento mais propício, nas proximidades do Dia Internacional da Mulher, o desmascaramento do deputado estadual em São Paulo, Arthur do Val (Podemos), o tal “Mamãe, falei”, flagrado em áudio machista, difamatório, cretino, que agride as mulheres envergonha os homens com alguma decência. Sua fala, infelizmente, é expressão de algo muito maior do que a sua insignificância (antes fosse só ele). É o falocentrismo em ação, base do machismo estrutural, que pauta seu pensamento e ação a partir da suposta superioridade do homem e da disponibilidade das mulheres às suas vontades e desejos.

O áudio do boquirroto bolsonarista em essência e morista de ocasião, feito originalmente, segundo ele, para um grupo de amigos da “pelada”, mostra como o machismo ainda grassa à vontade nos círculos masculinos — embora não aceito por todos. Qualquer homem que estiver lendo esse editorial sabe que o tipo de comentário desse cretino é terrivelmente mais frequente do que pode parecer. Mas há agravantes: além do machismo nosso de cada dia, há o requinte de desumanidade em praticá-lo contra mulheres que estão sendo vítimas de uma guerra. Difícil imaginar comportamento mais degradante para alguém que foi para a Ucrânia justamente com o discurso de que iria levar solidariedade.

Espera-se que a Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) não tenha com Arthur do Val a mesma condescendência que teve com outro deputado da casa, Fernando Cury (Cidadania), que assediou a deputada Isa Penna (Psol) em plena sessão, à vista de todos e das câmeras, e recebeu como punição apenas uma suspensão de 119 dias — impunidade que encoraja a manutenção desse comportamento por parte de parlamentares.
Sigamos, todas e todos, na luta pela equidade e contra o falocentrismo.

 

Espaço Aberto

Governança da Petrobrás posta à prova*

Rosangela Buzanelli**

Em março de 2021 tivemos o escândalo dos ex-gerentes executivos que negociaram ações da Petrobrás em período vetado a qualquer administrador da companhia, mas a penalidade aplicada foi leve para os delitos: demissão sem justa causa. No início deste ano tivemos o caso de vários gestores da alta cúpula da empresa em evento político junto ao presidente da república, nas instalações da companhia, quase todos sem máscara de proteção e alguns, sob uniforme e o teto da empresa, fizeram discurso político, afrontando o código de conduta ética da estatal e as regras sanitárias.

Mal esquecemos esses eventos, eis que surge a indicação de Bolsonaro para a presidência do CA da Petrobrás: Rodolfo Landim. Ex-funcionário da companhia, que a deixou para trabalhar com Eike Batista na OGX, Landim pode até ter currículo técnico para o cargo, mas não basta.

Em agosto passado Landim foi denunciado pelo MPF, junto com alguns ex-sócios pelo crime de gestão fraudulenta. Segundo a denúncia do MPF, Landim e os sócios Demian Fiocca e Nelson Guitti Guimarães atuaram numa operação financeira que teria causado um prejuízo de R$ 100 milhões a fundos de pensão de funcionários de estatais, como Funcef, Petros e Previ. De acordo com a ação, eles atuaram ardilosamente para driblar normas do FIP e da CVM, enviando irregularmente dinheiro para o exterior. A empresa americana que recebeu o investimento incidiu em falência, desaparecendo todo o recurso financeiro que havia recebido.

Apoio aos catadores

Parceiro antigo dos movimentos de catadores de materiais recicláveis em Campos dos Goytacazes, o NF participou, no último dia 3, de reunião com o bispo Dom Roberto Francisco Ferreria Paz, na busca de apoio para a causa destes trabalhadores. A entidade foi representada pelos diretores José Maria Rangel e Gustavo Figueiredo Morete. O encontro contou ainda com a pesquisadora e professora da UFF, Érica Terezinha Vieira de Almeida, que atua em pesquisas e projetos juntos aos catadores.

Aposentados

As reuniões setoriais dos aposentados, aposentadas e pensionistas estão de volta. É importante que a categoria fique atenta às convocações publicadas no site da entidade e nas redes sociais. Ontem, o encontro debateu Petros (Termo de Compromisso) e AMS, com os advogados Luiz Felippe e Marcello Gonçalves, assessores jurídicos do Sindipetro-NF, e com o diretor sindical, Rafael Crespo.

P-32

Petroleiros e petroleiras da plataforma P-32, na Bacia de Campos, têm dialogado com o Sindipetro-NF sobre as suas reivindicações durante chamado processo de “descomissionamento” da unidade. A plataforma está sendo vendida pela Petrobrás, em leilão em curso até o dia 31 de março. Depois de setorial ontem, a diretoria do sindicato tem reunião com a Petrobrás prevista para hoje.

P-36: 21 anos

O Sindipetro-NF está programando atividades nas bases e peças de mídia para marcar, na próxima terça, 15, os 21 anos da tragédia da P-36. A entidade tem o compromisso histórico de jamais esquecer o acidente que deixou 11 petroleiros mortos, dezenas de sobreviventes impactados para o restante da vida e diversas famílias marcadas pela dor e pela ausência. O sindicato não admite que trabalhadores sejam tratados como números esquecidos em uma planilha de custos ou de peças para repor.

 

 

VOCÊ PRECISA SABER

Custo dos afretados é maior do que o de navios Petrobrás

Dados disponibilizados pela Petrobrás e reunidos pelo economista Cloviomar Cararine, técnico do Dieese que atua na assessoria da FUP, mostram que as plataformas afretadas tiveram, no quarto trimestre de 2021, um custo de extração 62% maior do que o de unidades próprias da Petrobrás nos campos do pré-sal.

O custo de extração do pré-sal no período foi de US$ 3,24/barril nas plataformas da Petrobrás no pré-sal. Nas afretadas, o custo sobe para US$ 5,26/barril (62% maior). Além da baixa eficiência, a opção pelo afretamento impacta negativamente ao país em razão da redução da compra de produtos e serviços brasileiros, assim como a menor contratação de trabalhadores próprios da Petrobrás.

Uma das razões para os custos maiores de extração entre as afretadas, de acordo com Cararine, é o preço do barril de petróleo e o câmbio, que impactam os fretes e os contratos que têm como base esses dois fatores.

Pré-sal já tem 18 afretadas

Em 2021, a Petrobrás mantinha 19 plataformas próprias e duas afretadas (FPSO Cidade de Campos e Cidade de Niterói) na Bacia de Campos. Já na Bacia de Santos (grande parte do pré-sal) eram nove próprias e 13 afretadas. No total da área do pré-sal, reunindo Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo, a Petrobrás tinha, no mesmo ano, 30 próprias e 18 afretadas.

Para o coordenador geral do Sindipetro-NF, Tezeu Bezerra, estes números evidenciam o erro grave da política privatizante da Petrobrás. “A venda da Petrobrás e seus ativos, assim como a terceirização, têm piorado as condições de trabalho e aumentado os custos para a empresa. O que acontece hoje no pré-sal é só a “ponta do iceberg””, protesta o sindicalista.

O que é custo de extração

O custo de extração (ou lifting cost) é divulgado pela Petrobrás em seus relatórios de desempenho financeiro trimestral. Segundo a empresa, trata-se de um indicador de custo de extração de petróleo e gás natural que considera os gastos realizados no período.

O custo destacado pelo economista nesta matéria leva em conta a extração, sem considerar os valores em participações governamentais (royalties, participações especiais e retenção de área) e os investimentos realizados nas pesquisas e construção das condições para realização da produção. Ele é um indicador de comparação utilizado entre as petroleiras de todo o mundo.

NF nas ruas no Dia da Mulher

Militantes e diretoras dos movimentos sociais e sindicais de Macaé e Campos dos Goytacazes realizaram atos nas suas cidades para marcar a passagem do dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher — na última terça-feira.

Em Macaé a atividade começou cedo, às 10h, com uma concentração na Praça Veríssimo de Mello. As diretoras do Sindipetro-NF, Bárbara Bezerra, e o grupo de mulheres do PT , organizaram uma banca onde colocaram à disposição de quem passava cartilhas sobre direitos das mulheres, direito das domésticas, Lei Maria da Penha, jornal sobre a luta das mulheres petroleiras, entre outros.

No início do ato também foram distribuídos absorventes e folheto sobre pobreza menstrual como início da Campanha do Sindipetro-NF por políticas públicas voltadas para essa temática também [veja matéria na página 4]. Muitas mulheres receberam com satisfação o absorvente. “Lá em casa somos quatro mulheres e nem sempre tenho dinheiro para comprar absolventes” disse uma senhora que passava no ato. Uma outra que também não quis se identificar disse “tem meses que falta um real para inteirar para comprar o absorvente!”. Essas falas mostram como essa campanha é de grande importância para as mulheres mais pobres.

O ato político teve início com o pedido da diretora Bárbara para que fosse realizado um minuto de silêncio pelas mulheres vítimas de feminicídio no Brasil. Em seguida explicou como acontecerá a campanha de pobreza menstrual dentro do movimento Petroleiro Solidário, quando serão incluídas nas cestas básicas pacotes de absorventes. “Quase 90% das mulheres atendidas pela Campanha são mulheres e negras. Mulheres que não tem acesso á políticas públicas” – comentou.

Barbara lembrou em sua fala que as mulheres são as primeiras a perder direitos quando um governo como o de Bolsonaro se instala no país. “Temos que falar de pobreza menstrual, porque de uma a cinco meninas deixam de ir para a escola porque não tem absorvente. Muitas são impedidas de seguir seu sonho, inclusive de trabalhar na indústria por conta disso” – alertou.

A diretora do NF, Jancileide Morgado, focou sua fala no preconceito que as mulheres LGBTQIA+ sofrem e da importância do apoio de todas no combate ao machismo e feminicídio.

A ex-vereadora de Macaé, Marilena Garcia, 77 anos, foi prestigiar o ato das mulheres em Macaé. Em sua fala lembrou que duas das grandes conquistas históricas para as mulheres aconteceram respectivamente no Governo Lula e Dilma, que são a Lei Maria da Penha e a do Feminícídio. Marilena fez questão de reforçar que as eleições desse ano não serão fáceis e que será preciso ocupar as ruas.

Campos

Em Campos, foi montada uma tenda para centralizar a atividade e os materiais que foram distribuídos paa a população. O ponto central da atividade foi quando mulheres contaram suas histórias reais emocionantes, de luta e até sofrimento, para mostrar a dificuldade cotidiana que elas enfrentam.

Para Zé Maria Rangel, o 8 de março não é um dia festivo, mas um dia de reflexão a respeito do longo caminho percorrido pelas mulheres na conquista de seus direitos.

Já o coordenador do Sindipetro-NF, Tezeu Bezerra, lembrou de tantas mulheres que embarcam nas plataformas de petróleo, muitas passam 14 dias embarcadas longe de suas famílias para poder levar o sustento no final do mês. “Esse dia deve ser marcado para exigirmos respeito a todas as mulheres e para lembrar que a luta das mulheres e de todos que lutam por um mundo melhor com equidade de gênero” – concluiu Tezeu.

Rio de Janeiro

Os diretores do NF, Tezeu Bezerra, Zé Maria e Alessandro Trindade participaram, também no dia 8, na comunidade Selvinha, em Bangu, no Rio, de um encontro com mulheres de várias regiões. A plenária contou com a participação de lideranças da própria região, que puderam falar sobre a lei Maria da Penha, as dificuldades do dia a dia e pobreza menstrual. Todas as mulheres ganharam um pacote de absorvente (parte da Campanha Petroleiro Solidário) e houve sorteio de caneca e necessarie, além de entrega de troféus e certificados para mulheres de relevância para a localidade.

 

 

SAIDEIRA

Petroleiro Solidário entra na luta contra pobreza menstrual

O Sindipetro-NF iniciou, nesta semana, uma ação solidária para marcar o mês da mulher, com arrecadação de doações de absorventes íntimos, em suas sedes. O produto será incluído de modo permanente nas cestas de alimentos que o sindicato, junto à campanha Petroleiro Solidário, distribui em comunidades em situação de vulnerabilidade social em Macaé, Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro e outras cidades identificadas com demandas urgentes — como foi o caso recente de Petrópolis.

A divulgação da campanha de doações conta com peças publicitárias que serão veiculadas em TVs regionais e nas redes sociais. O material é estrelado pela poetisa, escritora e atriz Elisa Lucinda. Ela esteve em Campos dos Goytacazes, no último dia 4, para produzir os vídeos e fotos que tratam da pobreza menstrual, um drama que afeta milhões de brasileiras. Uma em cada quatro mulheres admite já ter deixado de ir à escola por não poder comprar um absorvente.

Durante a visita, Elisa esteve com o coordenador do Sindipetro-NF, Tezeu Bezerra, a diretora Bárbara Bezerra e os diretores Alessandro Trindade e Zé Maria Rangel. A diretoria do sindicato presenteou a atriz com o jaleco laranja da categoria, os livros dos 20 anos do Sindicato e do Trianon e uma mochila da entidade.

Desde o início da pandemia, o Sindipetro-NF promove a Campanha Petroleiro Solidário. Com ajuda de trabalhadores e trabalhadoras do setor de petróleo e gás e da comunidade em geral, a campanha distribui cestas básicas em cidades da região. A partir de março, mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, estas cestas contarão também com os absorventes.

Como doar

Qualquer pessoa pode colaborar. As doações de absorventes de qualquer tamanho podem ser feitas nas sedes do Sindipetro-NF em Campos (Av. 28 de Março, 485 – Centro) e Macaé (Rua Tenente Rui Lopes Ribeiro, 257 – Centro), ou na Associação de Moradores do conjunto Dom Jaime Câmara (Rua Bom Sossego, 382, Rio).

Saiba mais

Veja mais conteúdo e o vídeo da campanha no site do NF em is.gd/pobrezamenstrual.

 

 

NORMANDO

Mulheres e fascismo

Normando Rodrigues*

Existe uma Organização do Tratado do Atlântico Norte, criada em 1949 para se opor à União Soviética. E desde que a URSS se dissolveu, em 1991, a Otan coopta antigos países satélites com o fim de cercar a Rússia e seu arsenal nuclear.

Não se trata de destruir o país de maior extensão territorial do globo, mas de o submeter novamente ao lucro e interesses dos países centrais, como na época de Boris Yeltsin. Nada a ver com “conduzir a Rússia à democracia”.

Nesse admirável novo mundo pululam organizações criminosas do velho inimigo da falecida URSS, o fascismo.

Sol Negro

Fertilizados pelo exemplo máximo do presidente da república, os fungos do fascismo crescem como nunca em Pindorama. Nos três anos de mandato bolsonarista surgiram 530 organizações que totalizam mais de 10 mil fascistas tupiniquins.

Fenômeno semelhante acontece na Ucrânia, desde o golpe de estado de 2014, incentivado pelos EUA e baseado em denúncias de corrupção. Coincidência, né?

Dentre os diversos símbolos que os fascistas ucranianos utilizam está o Sol Negro. E, como todos sabem, ocorre neste momento uma guerra total entre Rússia e Ucrânia. E isso tudo foi estranhamente ligado ao Dia Internacional da Mulher?

Mulher em armas

A bom-mocista Otan registrou a passagem deste 8 de março com a foto de uma soldada ucraniana, em armas contra os invasores russos. E no uniforme da soldada havia um discreto Sol Negro.

O episódio serve a uma importante reflexão sobre o lado certo da vida. Lado que não é o do fascismo. Seja para a mulher ou para qualquer parcela da humanidade.

O fascismo se baseia unicamente na dominação dos fracos pelos fortes, como uma espécie de “seleção natural” artificial da raça humana. Seu “direito” se resume a isto e à legitimação da vontade do líder. A economia fascista também se organiza a partir desse primado da força, e nisso se iguala ao neoliberalismo.

Misoginia

O fascismo é essencialmente misógino. Para o fascista típico, patológica e sexualmente inseguro, a mulher é um mistério perante o qual o mundo brutal e simplório do macho naufraga, incapaz de a compreender.

Pior ainda, a complexidade e sensibilidade femininas amedrontam o brutamontes e ameaçam torná-lo humano. É preciso, por isso, escravizar as mulheres e as reduzir à condição de objeto, para impedir mulheres e homens livres, autônomos, capazes de reflexão e pouco propensos a integrar o rebanho fascista.

Por resultado dessa necessidade, nessa visão de mundo a mulher é um ser menor, fruto de uma “fraquejada”. Seu destino é servir aos homens, ainda que seja de uniforme de combate e fuzil de assalto nas mãos. Se forem “pobres”, melhor ainda porque “facinhas”.

Consciência

Se assim é, como podem existir mulheres fascistas? De fato, na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler existiram muitíssimas Bias Kicis, Carlas Zambellis e Saras Winters (esta última, aliás, treinada por grupo fascista ucraniano).

Contraditório? Tanto quanto o judeu Zelensky ser fascista, o negro Sérgio Camargo ser racista e o trabalhador brasileiro ser bolsonarista.
A chave para entender o fenômeno se chama “consciência”. Ou a falta dela.

* Assessor jurídico do Sindipetro-NF e da FUP.
[email protected]

 

1229merge