NF se reúne com bispo de Campos em busca de apoio para catadores de resíduos

Compartilhar no facebook
Compartilhar no google
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

Parceiro antigo dos movimentos de catadores de materiais recicláveis em Campos dos Goytacazes, o Sindipetro-NF participou ontem, no município, de reunião com o bispo Dom Roberto Francisco Ferreria Paz, na busca de apoio para a causa destes trabalhadores. A entidade foi representada pelos diretores José Maria Rangel e Gustavo Figueiredo Morete. O encontro contou ainda com a pesquisadora e professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), Érica Terezinha Vieira de Almeida, que atua em pesquisas e projetos juntos aos catadores.

O Sindipetro-NF apoia a coleta seletiva realizada por quatro cooperativas de catadores em Campos dos Goytacazes. A entidade custeia um caminhão, com motorista e combustível, utilizado para levar resíduos recicláveis para serem processados pelos trabalhadores. De acordo com a professora Érica, este apoio tem sido essencial para manter a atividade. “Realmente o que as cooperativas recebem com a comercialização não é suficiente para elas bancarem [os custos da coleta]”, explica.

A reunião com o bispo Dom Roberto foi realizada para expor esta situação e pedir apoio para mobilizar a sociedade e o poder público municipal para a causa. “Nós somos parceiros do movimento dos catadores e sabemos que há muitas pessoas tendo muita dificuldade. Queremos fazer com que a prefeitura reconheça e faça um contrato com as cooperativas que temos aqui. Nós temos várias famílias que dependem da coleta seletiva e estão passando fome”, afirma Rangel.

O diretor Morete lembrou que a atividade de coleta seletiva, além de necessária ambientalmente, é altamente lucrativa, mas precisa gerar retorno social para os envolvidos. “O processo de reciclagem é lucrativo, mas os catadores hoje ficam com uma ínfima parte do lucro. Por isso é tão importante essa organização dos catadores e essa luta para que eles tenham um retorno digno do trabalho que executam”, disse.

Dom Roberto ouviu com atenção as exposições dos sindicalistas e da pesquisadora e falou dos compromissos da igreja católica com as questões sociais e ambientais. Ele se disponibilizou para ajudar na busca do diálogo com o poder público e na mobilização da sociedade sobre o tema. “O bispo se comprometeu em apoiar os catadores tanto através dos programas e ações da própria Igreja quanto falando da importância socioambiental do trabalho deles para a sociedade”, relatou Érica Terezinha.

A professora Érica e o bispo Dom Roberto com os diretores do NF Morete e José Maria – Fotos: Luciana Fonseca

Um histórico de desconstrução da atividade

A pesquisadora explica que a coleta seletiva em Campos dos Goytacazes chegou a ter um volume muito maior e a gerar renda para muito mais pessoas. Ela lembra que, após o fechamento do chamado Lixão da Codin, em 2012, os catadores tiveram que buscar formas de continuar a sobreviver da reciclagem de materiais, inclusive por meio de uma ação na Justiça.

“O governo municipal não investe mais em coleta seletiva. A coleta seletiva sofreu um impacto imenso no governo anterior, de Rafael Diniz. Nós caímos de 5000 para 200 pontos [de coleta]. É bom lembrar que a coleta seletiva vem desde o ano de 1997. A concessionária, a empresa Vital, com recursos públicos, fazia a coleta e entregava para a Saci. Em 2015, a Justiça, por meio de uma ação civil pública, em segunda instância, no Tribunal de Justiça, dá ganho aos catadores e o então governo Rosinha [Garotinho] tem que transferir 140 toneladas por mês de coleta seletiva para as duas cooperativas que foram formadas naquele ano. E depois, até o final do governo Rosinha, a coleta seletiva também foi para uma terceira cooperativa e uma quarta cooperativa também usa os resíduos misturados. Então, assim, havia pelo menos resíduos para as cooperativas trabalharem”, afirma.

A professora continua a explicar que, a partir de 2017, houve uma diminuição do contrato de coleta urbana de resíduos que afetou sobretudo a atividade de reciclagem: “A coleta seletiva não foi prioridade no governo Rafael Diniz, muito pelo contrário, muitos catadores voltaram para a rua e o que se viu foi o crescimento dos pequenos, médios e grandes compradores de resíduo. Houve uma priorização muito maior do setor privado do que das cooperativas, que pararam de receber [material]. Hoje você não recebe nem 15 toneladas de coleta seletiva por mês”.

Potencial social e ambiental

As primeiras cooperativas de coleta e reciclagem de resíduos no Brasil foram criadas na década de 1990. De acordo com informações de 2018 do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento (SNIS), há 1.153 cooperativas no país, que processam 30,7% dos resíduos sólidos recolhidos no país. Dados mais recentes, de 2020, também do SNIS, mostram que, dos 5.570 municípios brasileiros, 36,3% contam com coleta seletiva de resíduos sólidos, envolvendo neste processo 35,7 mil catadores. Há, portanto, um grande potencial de expansão do setor.

Em Campos dos Goytacazes, há atualmente apenas 80 catadores vinculados às quatro cooperativas — com 60% deste grupo formado por mulheres — e há uma grande necessidade social e ambiental do envolvimento de um número muito maior de trabalhadores na coleta e na reciclagem. O município tem como segunda maior causa de poluição justamente a emissão de gases tóxicos oriundos do aterramento de resíduos urbanos, como o gás metano (produzido pelo lixo no solo) e o dióxido de carbono (decorrente da queima do metano), atrás apenas da poluição da pecuária e da agricultura (esta, com a queima da cana de açúcar).