Petroleira e ex-diretora do Sindipetro-NF toma posse na Academia Macaense de Letras

A palavra sempre esteve presente na trajetória de Conceição de Maria Pereira Alves Rosa. No trabalho, nos espaços de formação, no movimento sindical, nas poesias e nos livros. Agora, essa caminhada ganha um novo capítulo: a petroleira aposentada e ex-diretora do Sindipetro-NF tomou posse, no último dia 27 de maio, como integrante da Academia Macaense de Letras (AML).

A cerimônia foi realizada no Solar dos Mellos, em Macaé, onde Conceição assumiu a cadeira nº 1, que tem como patrono o jornalista Agenor Caldas. Fundada em 1963, mas reativada agora após 30 anos de inatividade, a Academia Macaense de Letras reúne 40 cadeiras ocupadas por escritores, pesquisadores, intelectuais e personalidades que contribuem para a produção cultural da região.

Autora dos livros “Pedaços de Mim” e ‘Travessia”, Conceição leva para a academia uma trajetória marcada pela combinação entre literatura, educação, militância social e mundo do trabalho. Para ela, a posse possui um significado que ultrapassa a conquista individual.

“Para mim tem um significado muito grande, porque minhas avós eram analfabetas. Poder estar sentada numa cadeira de uma academia é respeitar essa ancestralidade e mostrar essa resistência de uma neta de analfabetas que conseguiu chegar à Academia Macaense de Letras”, afirma.

A escritora recorda que o incentivo à formação intelectual sempre esteve presente em sua família. Segundo ela, sua avó materna teve papel fundamental na educação dos filhos e netos, mesmo sem ter tido acesso à alfabetização formal.

Muito antes da atuação sindical, Conceição construía caminhos na literatura. Ela integrou um grupo de poetas formado por trabalhadores da Petrobrás, que resultou na publicação do livro “Álbum In Verso”. A experiência foi além das páginas impressas.

“Nós saíamos do trabalho e íamos poetizar pelas escolas públicas. Fazíamos saraus, conversávamos com os estudantes e distribuíamos livros. Era uma forma de aproximar a literatura das pessoas”, relembra.

Diversas escolas de Macaé receberam as atividades culturais promovidas pelo grupo, levando poesia e incentivo à leitura para centenas de crianças e adolescentes.

Literatura e movimentos sociais

Ao longo dos anos, a experiência no movimento sindical também ampliou sua produção escrita. Durante sua atuação como diretora do Sindipetro-NF, Conceição publicou diversos artigos sobre direitos das mulheres, questões étnico-raciais, mundo do trabalho e cidadania, além de ter sido produtora de vários eventos culturais.

“Trouxemos para dentro do movimento sindical debates sobre gênero e raça. E isso também nos faz escrever. O escritor está dentro da gente. Onde estivermos, teremos um olhar sobre aquele território para transformar em texto”, observa.

Essa conexão entre literatura e compromisso social aparece com frequência em sua obra. Muitas de suas poesias abordam desigualdades, preconceitos e desafios enfrentados pelas mulheres e pela população negra. “Quando escrevo uma poesia social ou uma poesia com recorte étnico-racial, estou fazendo uma fala para a sociedade. É uma revolução das letras”, define.

A nova acadêmica acredita que a literatura não está distante da vida cotidiana. Pelo contrário: nasce justamente da experiência humana, dos conflitos e das transformações sociais. “Ser escritora é escrever a vida”, resume.

Luta é matéria de poesia

Ao refletir sobre o momento atual do país, Conceição cita o debate sobre o fim da escala 6×1 como exemplo de tema que merece ocupar também os espaços da literatura.

“Ser trabalhadora no Brasil é escrever uma história todos os dias. O fim da escala 6×1 vai impactar toda a classe trabalhadora, mas especialmente as mulheres, que enfrentam jornadas duplas e triplas. Nós também vamos escrever sobre isso”, afirma.

A chegada de Conceição de Maria Pereira Alves Rosa à Academia Macaense de Letras representa mais do que uma conquista pessoal. É também o reconhecimento de uma trajetória construída entre mundo do petróleo, salas de aula, espaços de luta coletiva e páginas de livros que orgulha o Sindipetro-NF e a categoria petroleira.

 

[Fotos: Acervo pessoal]