Soberania sob ataque: da ditadura de 64 e Lava Jato à invasão da Venezuela

As explosões que ecoaram em Caracas na madrugada do último sábado (3) não atingiram apenas o solo venezuelano, despertaram um alerta que a classe trabalhadora latino-americana conhece de sobra. A captura do presidente Nicolás Maduro por forças especiais dos Estados Unidos, sob ordens diretas de Donald Trump, não é um “ato isolado de justiça”, como propaga a mídia comercial. O que se vê é um ataque frontal à autodeterminação dos povos e uma investida agressiva pelo controle dos recursos estratégicos da região.

A justificativa de Washington para a invasão, a suposta “guerra às drogas”, é uma roupagem nova para um objetivo antigo. Ao afirmar que petroleiras norte-americanas “assumirão” a infraestrutura venezuelana, Trump deixa claro que o alvo é a riqueza que deveria financiar o desenvolvimento social venezuelano.

O que ocorre hoje em Caracas é o capítulo mais recente de uma estratégia contínua que busca desestabilizar nações que ousam trilhar caminhos independentes. A experiência histórica mostra que o ataque à soberania nacional costuma ser o primeiro passo para o desmonte de direitos trabalhistas e a repressão à organização popular.

A história não nos deixa esquecer

Em 1964, o Brasil viveu um roteiro semelhante ao sofrer um um golpe militar financiado e instrumentado pelos EUA. O regime que se seguiu não se limitou à perseguição política, mas abriu as portas para o saque das riquezas nacionais.

Décadas depois, a estratégia mudou de método, mas não de origem. Especialistas apontam que a Operação Lava Jato operou como uma máquina política, articulada com o governo dos Estados Unidos. Com a premissa do combate à corrupção, o resultado prático foi o enfraquecimento de empresas estratégicas, o que custou caro à economia do país.

Segundo estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que rastreou os efeitos de 2014 a 2017 dos setores afetados diretamente e indiretamente pela Lava Jato, a operação contribuiu para a destruição de 4,4 milhões de empregos e facilitou a entrega do pré-sal, pavimentando o caminho para as reformas que retiraram direitos históricos dos trabalhadores.

Por isso, a invasão da Venezuela serve como um recado direto ao Brasil e aos países da América Latina: o imperialismo não tolera vizinhos soberanos. Quando o poder externo intervém para “libertar” o petróleo alheio, a mensagem é que qualquer país que utilize suas riquezas para financiar saúde, educação e salários está na mira.

A história mostra que se o petróleo é o alvo, a soberania é a principal vítima dessa estratégia. A ofensiva contra a Venezuela sob o pretexto de combate ao crime mascara o objetivo central: o controle das maiores reservas de petróleo do mundo, aproximadamente 303 milhões de barris, compreendendo 17% de todas as reservas globais. Isso sem contar o fato de que, ao transferir a infraestrutura energética para petroleiras estrangeiras, anula-se a capacidade do Estado de utilizar sua riqueza natural para o desenvolvimento social, transformando recursos estratégicos em mercadoria de exportação.

Defender a Venezuela hoje é, essencialmente, defender a soberania da América Latina. Garantir o direito de uma nação gerir seus recursos é também proteger sua autodeterminação. O desafio atual é rejeitar a ingerência e fortalecer a integração regional, para assegurar que o futuro da América Latina seja decidido por seus próprios cidadãos, e não imposto de fora para dentro.