Da Imprensa da CUT* – A bartender B.P.R, de 34 anos, que morou até recentemente num bairro periférico da zona norte da capital paulista, de extrema vulnerabilidade, é testemunha de como as bets se tornaram um vício que tem levado pessoas a se endividarem cada vez mais e a perderem o que haviam conquistado.
Ela conta que onde morava é perto de bares e pontos de drogas e diariamente via adolescentes, a partir de 14 anos, e adultos com os celulares em mãos tentando ganhar algum dinheiro extra no jogo, inclusive, para comprar drogas, mas quando ganhavam, tentavam novamente e perdiam tudo. Nos bares, os idosos que normalmente iam para beber e conversar, estavam o tempo todo com o celular em mãos, apostando em bets.
“Eu também num momento de sufoco financeiro, no ano passado, apostei R$ 20,00 num jogo. Ganhei R$ 240,00, mas na hora do resgate recebi um e-mail da plataforma informando o bloqueio porque eu recebo Bolsa Família, mas eles não devolveram o dinheiro do pagamento que fiz. Apesar de ter perdido o dinheiro concordo que é preciso ter limites porque vi gente perdendo até carro”, diz.
Em setembro do ano passado, o governo federal obrigou as operadoras de apostas a bloquearem as contas desses beneficiários. Três meses depois o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, suspendeu essa proibição, mas manteve o impedimento de novos cadastros ou abertura de contas para quem recebe benefícios assistenciais.
O relato da bartender de como as bets vão do sonho de um dinheiro fácil ao pesadelo de mais endividamento se confirma nos dados do estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e da FIA Business School, publicado no final de março deste ano. Segundo o estudo, o impacto das apostas online no endividamento das famílias é quase o dobro da soma dos créditos e de juros, podendo ser ainda maior, já que parte do efeito dos juros já está embutido na dinâmica do crédito.
Para se chegar a esse resultado os responsáveis pela pesquisa criaram indicadores que calculam os impactos de quatro condições: o peso do crédito sobre a renda, o patamar dos juros, o tempo das dívidas e as bets. O coeficiente associado às apostas atingiu 0,2255, superando com ampla margem o impacto do crédito sobre a renda (0,0440), dos juros ao consumidor (0,0709) e do tempo de dívida (-0,0017). De acordo com o Banco Central, no primeiro trimestre de 2025, os apostadores destinaram até R$ 30 bilhões mensais às bets.
Outra pesquisa voltada ao perfil dos paulistas do Procon-SP, que compreende o período de dezembro de 2025 a janeiro deste ano, mostrou que quatro entre 10 apostadores se endividaram. A maioria (43%) gastam até R$ 100 mensais e outros 30% chegam a apostar mais de R$ 1 mil mensais. Embora os homens com renda de até dois salários mínimos, sejam os que mais apostam (61,8%), quem mais se endivida com bets são as mulheres (54%). Elas têm até 30 anos (44,7%) e possuem renda mensal de até dois salários mínimos (46,8%).
O índice das famílias brasileiras endividadas atingiu o recorde de 80,4% em março deste ano. O avanço foi de 0,2 ponto percentual em relação a fevereiro (80,2%) mostrou a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (CNC) divulgada na terça-feira (7).
Lula quer diminuir endividamento e proibir bets no Brasil
Diante desses dados alarmantes, o governo federal deve apresentar nos próximos dias, medidas para conter o aumento do endividamento, inclusive, com a possibilidade de perdão de até 80% do valor das dívidas. Entre elas, está a liberação de R$ 7 bilhões do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Segundo o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho a medida beneficiará 10 milhões de trabalhadores que tem saldo na conta.
O presidente Lula defende também a proibição do funcionamento das bets no país, não apenas pelo endividamento como pelo agravamento de problemas de saúde pública decorrentes do vício em jogos.
“Se depender de mim, a gente fecha as bets. Não é possível a gente continuar com essa jogatina desenfreada nesse país. Isso leva a sociedade a cometer desvios”, disse Lula em entrevista ao ICL Notícias, na quarta-feira (7).
O presidente argumentou que o endividamento no Brasil tem raízes nos baixos salários e que o governo está estudando propostas para ajudar as famílias a quitar dívidas. Para ele, o endividamento está sendo potencializado pela promessa de “ganho rápido” das apostas.
Todo mundo quer ganhar um dinheirinho a mais, mas quando a pessoa está viciada no jogo, tem que tratar isso como uma questão de saúde. Eu conheço pessoas que perderam o carro, perderam a casa. Pessoas que se matam
O presidente, ressaltou, no entanto, que uma decisão final sobre o fim das bets depende de articulação com o Congresso Nacional. “O debate político, entretanto, seria complexo, já que, segundo ele, o setor de apostas possui forte influência e financia parlamentares e partidos políticos.
Prejuízos à saúde
Trabalhadoras e trabalhadores que têm apostado vem recorrendo a empréstimos para cobrir despesas básicas e fazem pedidos frequentes de adiantamento salarial para quitar dívidas com jogos. Esse endividamento constante afeta o desempenho profissional, provocando estresse, ansiedade, queda de produtividade e até depressão.
Uma reportagem publicada no site da CUT mostrou que o governo federal tem reagido. Em outubro de 2024, quando ainda era ministra da Saúde, Nísia Trindade classificou a dependência em jogos online como uma pandemia e defendeu políticas semelhantes às do combate ao tabagismo.
Diante deste quadro , o atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha defendeu a proibição de publicidade das bets, como ocorreu com o cigarro.
“Pra mim hoje, o problema das bets é um problema de vício na mesma dimensão que foi o do cigarro. O cigarro tinha propaganda de acesso à criança, propaganda esportiva. A Fórmula 1 era praticamente toda pautada pela indústria do cigarro”, disse o ministro em entrevista a Rádio Nacional, na quinta-feira (9).
Programas do SUS
O ministro da Saúde recomendou o programa de teleatendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), apoia pessoas que apresentam compulsão por jogos de aposta através de um serviço gratuito. A assistência especializada é realizada por psicólogos e terapeutas ocupacionais.
Outro programa citado por Padilha é autoexclusão, que permite ao cidadão bloquear simultaneamente todas as contas em sites de apostas autorizados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
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*Com informações da Agência Brasil.


