20º Confup: Projeto nacional de desenvolvimento e soberania marcam debate sobre conjuntura na primeira mesa de hoje, 21

Valter Pomar, Valerio Arcary e Elias Jabbour apontaram que a reconstrução da indústria, a soberania nacional e a mobilização da classe trabalhadora são fundamentais para enfrentar a crise internacional e o avanço da extrema direita.

Salvador (BA) – A construção de um projeto nacional de desenvolvimento, capaz de fortalecer a soberania brasileira diante das transformações da ordem mundial, foi o eixo central da mesa “Análise de Conjuntura Nacional e Internacional”, realizada na manhã desta terça-feira (21), durante o segundo dia do XX Congresso Nacional da Federação Única dos Petroleiros e Petroleiras (Confup), em Salvador.

O debate reuniu Walter Pomar, dirigente do PT e da Fundação Perseu Abramo; Elias Jabbour, militante do PCdoB, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas da UERJ e ex-diretor do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD); e Valério Arcary, militante do PSOL e professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP).

Em comum, os três palestrantes defenderam que o Brasil vive um momento decisivo da história e que somente um projeto nacional voltado ao desenvolvimento, à soberania e ao fortalecimento da classe trabalhadora será capaz de enfrentar os desafios impostos pela crise do capitalismo, pela reorganização da geopolítica mundial e pelo avanço da extrema direita.

Crise mundial abre oportunidade para o Brasil

 

Ao analisar a conjuntura internacional,  Walter Pomar afirmou que a crise iniciada em 2008 marcou o início do declínio da hegemonia dos Estados Unidos e inaugurou uma nova etapa de instabilidade política e econômica mundial.

Segundo ele, o avanço da extrema direita, o aumento das desigualdades sociais, a crise climática e os conflitos internacionais são expressões desse novo cenário. Apesar disso, Pomar avaliou que o Brasil pode transformar essa conjuntura em uma oportunidade histórica. “Nós temos a possibilidade de aproveitar essa situação e fazer com que, nas próximas décadas, o nosso país exerça o seu potencial. Um potencial que sempre foi tolhido pela classe dominante.”

Para o dirigente, a principal tarefa da classe trabalhadora é construir força política suficiente para transformar essa oportunidade em um projeto nacional de desenvolvimento. “O decisivo, em última análise, é qual é o grau de consciência, organização e capacidade de mobilização da maioria do povo brasileiro.”

Transformação exige organização popular

 

Na avaliação de Valério Arcary, segundo a palestrar, a construção desse projeto nacional depende da capacidade de reorganização da própria classe trabalhadora. Arcary afirma que embora a eleição presidencial de 2026 seja decisiva para impedir o avanço da extrema direita, ela representa apenas uma etapa de um processo mais amplo de transformação.  “Nós temos que eleger o Lula para nos blindarmos do perigo da extrema direita. Mas o desafio continua sendo a Revolução Brasileira” – disse.

Arcary defendeu que a soberania nacional passa pela conquista de soberania energética, alimentar, tecnológica e industrial, mudanças que, segundo ele, exigem profundas transformações na estrutura de poder do país. “Para ter soberania energética, soberania alimentar, soberania tecnológica, soberania militar, todas as soberanias possíveis, o poder tem que mudar de mãos” – afirmou.

O professor chamou atenção para outro desafio: a fragmentação política da própria classe trabalhadora brasileira. Ele diz que para reconstruir essa unidade será fundamental para qualquer projeto estratégico de desenvolvimento nacional. “A tarefa é reconstruir a unidade da classe trabalhadora, sem a qual não há nenhuma perspectiva estratégica capaz de mudar o Brasil.”


Reindustrialização como caminho para a soberania

 

Ao aprofundar o debate econômico, Elias Jabbour defendeu que a soberania nacional passa necessariamente pela reconstrução da capacidade produtiva brasileira. Segundo ele, o país enfrenta um longo processo de desindustrialização que compromete o desenvolvimento econômico, a geração de empregos qualificados e a própria democracia. “O Brasil precisa se reencontrar consigo mesmo”, afirmou, defendendo que o país reduza sua dependência tecnológica em relação às grandes potências e volte a investir em ciência, tecnologia e indústria.

Para Jabbour, a reindustrialização deve ser o centro de um novo projeto nacional. “O Brasil, se não gerar de 10 a 12 milhões de empregos industriais em dez anos, corre o risco de desaparecer enquanto civilização.”

O economista também destacou a experiência chinesa como referência para países que buscam ampliar sua soberania econômica. Segundo ele, a combinação entre planejamento estatal, investimento público e desenvolvimento tecnológico permitiu que a China retirasse cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza e construísse um Estado de bem-estar social em larga escala.

Na avaliação de Jabbour, discutir crescimento econômico, política industrial e investimento público deve voltar ao centro da agenda política brasileira. “Não existe combate ao fascismo sem a construção de uma base material para isso. Não existe combate ao fascismo fora da reindustrialização.”

Ao defender um novo projeto para o país, o professor afirmou que a esquerda precisa voltar a oferecer perspectivas concretas para a população. “Hoje, uma criança pobre, uma mulher em situação de vulnerabilidade, querem saber de futuro. E a esquerda brasileira precisa entregar esse futuro” – sugeriu.

 

 

Soberania, desenvolvimento e futuro

 

Apesar das diferentes abordagens, os três debatedores convergiram ao defender que o Brasil precisa retomar um projeto nacional baseado na soberania, na industrialização, na valorização do trabalho e na participação organizada da classe trabalhadora.

Para Walter Pomar, a crise internacional abre uma oportunidade histórica para que o país ocupe um novo lugar no mundo. Elias Jabbour defendeu que essa mudança passa pela reindustrialização e pela recuperação da capacidade de planejamento do Estado. Já Valério Arcary ressaltou que somente uma classe trabalhadora organizada será capaz de construir as condições políticas para viabilizar esse projeto.

Os debates marcaram a programação do segundo dia do XX Confup, que segue até o próximo dia 24, reunindo petroleiros e petroleiras de todo o país para discutir os rumos da categoria e os desafios da soberania nacional, da transição energética e do desenvolvimento brasileiro.