A segunda mesa de debates do 22º Congrenf (Congresso Regional dos Petroleiros e Petroleiras do Norte Fluminense), realizada na manhã de hoje (11), reuniu especialistas e dirigentes para discutir um dos temas mais estratégicos para a categoria petroleira e para o país: a transição energética e o futuro da exploração de petróleo na Bacia de Campos. Com o tema “A Transição Energética e o futuro do novo pré-sal da Bacia de Campos”, o debate contou com exposições de Francismar Cunha Ferreira, pesquisador do Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis); Carlos Takashi, pesquisador do Dieese; e Rosângela Buzanelli, representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Petrobrás. A mediação foi dos diretores do Sindipetro-NF Guilherme Cordeiro e Vanilda Queiroz.
Abrindo os debates, Francismar Cunha Ferreira apresentou um panorama da evolução das reservas petrolíferas brasileiras e chamou atenção para a forte redução das atividades exploratórias na última década. Segundo ele, embora o país tenha ampliado suas reservas totais nos últimos anos, esse crescimento está cada vez mais ligado à revisão de campos já conhecidos do pré-sal do que à descoberta de novas acumulações.
“O aumento recente das reservas brasileiras decorre muito mais do amadurecimento tecnológico e da ampliação do fator de recuperação dos campos já existentes do que de novas descobertas. Quando olhamos a atividade exploratória, vemos uma redução muito significativa da perfuração de poços. Isso cria um problema para o futuro, porque compromete a reposição das reservas”, alertou.
O pesquisador destacou ainda que a Bacia de Campos continua apresentando elevado potencial exploratório, especialmente em áreas do pré-sal, e criticou o adiamento sucessivo de projetos de revitalização de campos maduros. Para ele, a região sofre até hoje os efeitos da redução de investimentos e das privatizações promovidas nos últimos anos.
“O declínio da produção da Bacia de Campos não pode ser explicado apenas pelo amadurecimento natural da bacia. Ele está diretamente relacionado à retração dos investimentos, à redução da atividade exploratória e à venda de ativos. A Bacia de Campos ainda tem potencial, ainda apresenta descobertas importantes e precisa voltar a receber investimentos compatíveis com sua importância estratégica”, defendeu.
Francismar também demonstrou preocupação com a redução da participação da Petrobrás nas reservas e na produção nacional, apontando um processo de desnacionalização do setor.
“Estamos observando empresas privadas e multinacionais ampliando sua participação nas reservas e na produção em um ritmo superior ao da Petrobrás. Por isso é fundamental fortalecer a presença da empresa nas áreas exploratórias e garantir sua atuação estratégica nos próximos leilões”, afirmou.
Empregos, desenvolvimento regional e transição justa
Na sequência, Carlos Takashi apresentou dados sobre a forte dependência econômica do Norte Fluminense em relação à indústria do petróleo. Segundo o pesquisador, Macaé concentra uma das mais intensas relações entre emprego formal e atividade petrolífera do país, enquanto toda a região é fortemente impactada pelos investimentos da cadeia produtiva do setor.
Ao apresentar resultados de uma pesquisa realizada com trabalhadores da Petrobrás e de empresas privadas, Takashi mostrou que o petróleo continua sendo visto como a principal fonte de empregos de qualidade na região.
“Muitas pessoas não escolheram trabalhar no petróleo por uma questão ideológica. Elas chegaram à indústria porque era onde havia oportunidade de emprego, remuneração e perspectivas de crescimento. Isso mostra o peso que essa atividade tem na vida das pessoas e na dinâmica econômica das cidades da região”, explicou.
O pesquisador destacou que a discussão sobre transição energética não pode ignorar essa realidade social e econômica. Segundo ele, os trabalhadores demonstram preocupação com o futuro dos empregos e defendem que qualquer mudança seja construída de forma gradual e planejada.
“O que apareceu muito nas entrevistas foi a ideia de que uma eventual transição precisa ser construída passo a passo. As pessoas perguntam: se não for o petróleo, o que vai gerar emprego aqui? O que vai sustentar as cidades? Essa preocupação é legítima e precisa estar no centro do debate”, afirmou.
Takashi ressaltou ainda que o conceito de transição energética justa nasceu justamente da necessidade de proteger trabalhadores e comunidades diante das transformações produtivas.
“Os trabalhadores entendem que não basta discutir novas fontes de energia. É preciso discutir quem vai decidir esse processo, quem vai se beneficiar dele e quem vai arcar com os custos. Por isso surgiu com muita força a defesa de que os sindicatos participem das decisões sobre investimentos, planejamento e futuro da indústria energética”, observou.
Petrobrás, soberania e o debate sobre as renováveis
Encerrando a mesa, Rosângela Buzanelli fez uma defesa contundente da ampliação dos investimentos da Petrobrás, da reposição de reservas e da exploração de novas fronteiras petrolíferas, como a Margem Equatorial. A conselheira também criticou a elevada distribuição de dividendos pela companhia e defendeu que mais recursos sejam destinados à expansão produtiva e à pesquisa.
“Nós pagamos mais dividendos do que qualquer outra petroleira do planeta e, ao mesmo tempo, precisamos investir para repor reservas, ampliar a exploração e fortalecer a Petrobrás. Essa disputa acontece permanentemente dentro da empresa. Precisamos olhar para o futuro e garantir os investimentos necessários para manter a companhia forte”, afirmou.
Rosângela também questionou parte das formulações presentes no debate internacional sobre transição energética, argumentando que o Brasil precisa construir soluções compatíveis com sua realidade econômica, social e ambiental.
“Eu prefiro falar em diversificação energética do que em transição. O petróleo continuará sendo necessário por muito tempo, seja para combustíveis, seja para a petroquímica e para inúmeros produtos presentes no nosso cotidiano. O desafio é diversificar a matriz e reduzir impactos, sem abrir mão da soberania energética do país”, disse.
A representante dos trabalhadores chamou atenção para os impactos ambientais e sociais associados a alguns modelos de implantação de projetos eólicos, solares e de produção de biocombustíveis.
“A gente não pode demonizar os combustíveis fósseis e romantizar as energias renováveis. Não existe energia limpa no sentido absoluto. Toda fonte energética gera impactos. Precisamos discutir quem paga essa conta, quais territórios estão sendo afetados e quais interesses econômicos estão por trás desses projetos”, argumentou.
Segundo Rosângela, o papel mais estratégico da Petrobrás nesse cenário está na capacidade de investir em ciência, tecnologia e inovação para desenvolver novas soluções energéticas.
“A Petrobras tem capacidade financeira e tecnológica para liderar pesquisas em áreas como geotermia, hidrogênio natural e outras rotas tecnológicas. Esse é um papel fundamental da empresa: desenvolver conhecimento, gerar inovação e construir alternativas energéticas alinhadas aos interesses do povo brasileiro”, concluiu.
Ao final da mesa, ficou evidente a convergência entre os palestrantes quanto à necessidade de fortalecer a Petrobrás, ampliar os investimentos exploratórios e garantir que o debate sobre transição energética seja conduzido de forma soberana, considerando a realidade brasileira, a proteção dos empregos e o desenvolvimento das regiões produtoras de petróleo, como o Norte Fluminense.


