22º Congrenf : mesa 3 discute riscos psicossociais e fortalecimento da saúde mental no trabalho

A saúde mental dos trabalhadores e o enfrentamento à violência no ambiente do trabalho estiveram no centro dos debates da terceira mesa do 22º Congrenf, realizada na tarde desta quinta-feira (11). Com o tema “Novas NRs e Violência no Trabalho”, a atividade contou uma palestra do engenheiro e pesquisador em Segurança do Trabalho da Fiocruz, Alexandre Mosca, que apresentou uma análise sobre os desafios da implementação da nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) e seus impactos na prevenção dos riscos psicossociais.

Durante a palestra, Mosca alertou para o avanço dos transtornos mentais relacionados ao trabalho e destacou que cerca de 500 mil trabalhadores estão afastados pelo INSS em decorrência de problemas ligados à saúde mental. Segundo ele, a atualização da NR-1 representa um importante avanço ao reconhecer oficialmente os riscos psicossociais como fatores que devem ser identificados, avaliados e controlados pelas empresas.

O pesquisador explicou que a norma, publicada em 2024, amplia a responsabilidade das empresas na prevenção do adoecimento mental e estabelece novas exigências para os Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR) e para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

“A gestão dos riscos psicossociais deixa de ser uma responsabilidade exclusiva da área de segurança do trabalho e passa a envolver toda a organização. Os planos de ação precisam ser construídos dentro dos setores, considerando a realidade dos trabalhadores e das lideranças”, destacou.

Mosca chamou atenção para uma característica específica da legislação brasileira. Diferentemente de outros países, no Brasil os danos relacionados à saúde mental podem gerar responsabilização civil e criminal das empresas, o que torna ainda mais importante a adoção de medidas preventivas.

Burnout, liderança e organização do trabalho

Ao abordar os fatores que contribuem para o adoecimento mental, o palestrante destacou a síndrome de burnout como uma das principais consequências dos ambientes de trabalho marcados por excesso de pressão, metas abusivas e jornadas exaustivas.

Segundo ele, o burnout não afeta apenas os trabalhadores da base, mas também gestores e lideranças. “Muitas vezes o chefe também está adoecido e acaba reproduzindo esse sofrimento para toda a equipe”, observou.

Mosca explicou que a prevenção passa pela melhoria das condições de trabalho, pelo respeito aos períodos de descanso e pela construção de ambientes organizacionais mais saudáveis. Ele também abordou o chamado “boreout”, condição associada à falta de atividades, perda de propósito e desmotivação profissional, demonstrando que tanto a sobrecarga quanto a ausência de desafios podem gerar sofrimento psíquico.

Para o pesquisador, situações comuns na indústria do petróleo, como o trabalho embarcado e os longos períodos de convivência em ambientes confinados, exigem atenção especial na avaliação dos fatores de risco.

Participação dos trabalhadores é fundamental

Um dos principais pontos da palestra foi a necessidade de participação ativa dos trabalhadores na implementação da nova NR-1. Mosca explicou que a identificação dos riscos psicossociais deve ser feita por meio de metodologias científicas reconhecidas internacionalmente, com aplicação de questionários anônimos e análise de indicadores organizacionais como afastamentos, rotatividade, acidentes e adoecimentos.

Ele destacou que o processo deve envolver diferentes áreas da empresa, incluindo saúde ocupacional, recursos humanos, psicologia, segurança do trabalho, compliance e setor jurídico, além da atuação das CIPAs e das lideranças.

“A avaliação não busca identificar problemas individuais, mas compreender como a organização do trabalho pode gerar adoecimento. O foco está nas condições de trabalho e não na vida pessoal dos trabalhadores”, ressaltou.

Assédio moral e sexual seguem como desafios

Na parte final da apresentação, Alexandre Mosca abordou uma das formas mais graves de violência no ambiente de trabalho: os assédios moral e sexual.

Segundo ele, o assédio moral se caracteriza por condutas repetidas que humilham, isolam ou degradam trabalhadores, enquanto o assédio sexual envolve avanços indesejados, comentários sexistas, constrangimentos e outras formas de violência.

O pesquisador alertou para a necessidade de diferenciar situações de assédio de cobranças legítimas relacionadas ao desempenho profissional. “Críticas construtivas e cobranças compatíveis com as atribuições do cargo não configuram assédio. O assédio é uma prática sistemática de humilhação, constrangimento e exclusão”, explicou.

Como estratégia de enfrentamento, Mosca apresentou quatro pilares fundamentais para a construção de ambientes de trabalho saudáveis: identificar, prevenir, acolher e denunciar.

“A violência no trabalho não pode ser naturalizada. Somente com informação, participação dos trabalhadores e compromisso das organizações será possível construir ambientes mais seguros e saudáveis”, concluiu.

Essa mesa foi mediada pelos diretores Anderson da Silva e Eliane P. M. Carvalho, que destacaram a importância de ampliar o debate sobre saúde mental no ambiente de trabalho, especialmente diante do crescimento dos casos de depressão, ansiedade e adoecimento relacionados à intensificação das jornadas, às pressões produtivas e ao uso constante das tecnologias digitais.