8 de Março: mulheres contra a violência, fim da 6×1 e por representação na política

André Accarini / Da Imprensa da CUT – Em 2026, o Mês Internacional da Mulher acontece no contexto de que, de uma vez por todas, a violência contra a mulher tem que acabar. Com índices de feminicídios crescentes não basta apenas o poder público ter iniciativas, elaborar políticas públicas e planos de ação. É crucial que a própria sociedade assuma a corresponsabilidade no combate a esse tipo de violência: o parente próximo, o amigo, o vizinho, todos quem presenciam ou desconfiam de abusos tem de agir para que os agressores sejam punidos.

“Não se trata de fazer justiça com as próprias mãos e sim de denunciar, acolher a mulher, afastá-la, tirá-la do ambiente tóxico e violento em que eventualmente viva. Quem tem conhecimento de todo e qualquer caso, deve denunciar, acolher, proteger e encaminhar essa mulher para fora da situação de perigo”, diz a secretária da Mulher Trabalhadora CUT, Amanda Corcino.

Entre as bandeiras de luta da CUT para o 8 de Março – Dia Internacional da Mulher – além do fim da escala 6×1, da soberania dos povos e de uma maior representação política feminina, está o fim do feminicídio.

Neste 8 de Março estamos fazendo uma convocação definitiva à sociedade para acabar com a violência gritante contra a mulher. Estamos também dando visibilidade às nossas pautas – temas que são de urgência porque nos impactam diretamente

Amanda Corcino

Ação

Março não pode ser um mês somente protocolar, diz Amanda, reafirmando um chamado à consciência coletiva para uma realidade que não pode ser tratada como rotina. O Brasil fechou 2025 com cerca de 1.470 feminicídios – média de quatro mulheres assassinadas por dia. Mais de 1 milhão de novos processos de violência doméstica ingressaram no Judiciário. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher aponta que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar no último ano. Em 71% dos casos havia crianças presentes. A casa segue como o principal local da violência.

“Esses números não podem somente ser vistos com uma estatística. São vidas interrompidas, famílias devastadas e uma sociedade que ainda reage com lentidão diante do que deveria ser intolerável”, diz Amanda Corcino.

Por isso, ela diz, é preciso uma mudança profunda na forma como a sociedade encara o problema.

Poder público

Recentemente, a CUT participou do lançamento do Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, que reúne Executivo, Legislativo e Judiciário para integrar ações de prevenção, proteção e responsabilização. A central afirma que acompanhará a implementação das medidas para garantir que tenham efetividade concreta na vida das mulheres.

“O Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio é um marco importantíssimo no combate à violência contra mulheres e meninas, porque reconhece que a violência contra a mulher no Brasil é estrutural. Para combatê-la, precisamos de ações integradas, de mobilização social e de políticas que promovam a prevenção, o debate sobre justiça de gênero, a valorização das mulheres, o direito a uma vida sem violência e a punição célere para os agressores”, afirma.

Ela reforça que o enfrentamento exige envolvimento direto dos homens. “São eles que nos agridem, nos violam e nos matam todos os dias. Só uma sociedade unida e consciente pode colocar fim a essa escalada do feminicídio no nosso país”.

Mas o chamado vai além das instituições. Casos brutais registrados recentemente revelam a face extrema de um ciclo que quase sempre começa com agressões anteriores, ameaças, controle e silenciamentos. Mesmo com medidas protetivas, mulheres continuam sendo assassinadas. Em muitos casos, elas já haviam denunciado e pedido ajuda anteriormente. É fundamental que os serviços públicos funcionem com rapidez e que a rede de acolhimento esteja preparada. E é igualmente essencial que a sociedade não se omita.

Em caso de ameaça ou violência, a orientação é buscar ajuda imediata pelo Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher, 24 horas, anônimo) ou, em situação de emergência, pelo 190. Deve-se registrar Boletim de Ocorrência em Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), presencialmente ou online, e solicitar Medidas Protetivas de Urgência. Não é necessário provar a violência: o relato é suficiente para que as investigações e mecanismos de proteção sejam acionados. Guardar mensagens, áudios, vídeos e listar testemunhas fortalece o processo. CREAS e a Casa da Mulher Brasileira oferecem apoio psicológico e jurídico. Em situação de risco elevado, é indicado preparar um plano de segurança.

Pelo Direito à Vida e Combate ao Feminicídio

O primeiro eixo de mobilização da CUT neste março é direto: defender a vida das mulheres. A central denuncia que 2025 foi o ano mais letal desde que o feminicídio foi tipificado, em 2015. Destaca também que a impunidade e a desigualdade econômica dificultam o enfrentamento da violência e que o assédio moral e sexual no trabalho empurra muitas mulheres para o adoecimento ou para o desemprego.

Pautas do 8 de Março:

Além da luta contra a barbárie vitima mulheres, ao longo de março, a CUT e sindicatos filiados promoverão seminários, rodas de conversa, atos públicos, debates em locais de trabalho e campanhas de conscientização para ampliar informação e fortalecer redes de proteção, com as seguintes pautas.

-Mais Mulheres na Política

Um dos eixos centrais é a ampliação da representação feminina nos espaços de poder. Embora as mulheres sejam 52% do eleitorado brasileiro, ocupam cerca de 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados e menos de 20% no Senado. O país aparece na 133ª posição no ranking global de representação parlamentar feminina.

Para a CUT, não basta aumentar numericamente a presença de mulheres: é fundamental fortalecer a eleição de mulheres comprometidas com pautas progressistas, com a defesa da autonomia, da igualdade e da proteção social. A presença feminina nos espaços de decisão impacta diretamente na elaboração de políticas públicas de proteção e promoção de direitos.

Fim da Escala 6×1 e Justiça no Mundo do Trabalho

A luta pelo fim da escala 6×1 ganha centralidade neste 8 de Março e no Mês Internacional da Mulher. Para elas, o impacto da jornada exaustiva é ampliado pela dupla ou tripla jornada. Enquanto homens dedicam em média 11,7 horas semanais ao trabalho doméstico, mulheres dedicam 21,3 horas. Entre mulheres pretas e pardas, a carga é ainda maior.

Amanda destaca que a desigualdade no mundo do trabalho dialoga diretamente com a violência estrutural. “Quando falamos de trabalho, de independência econômica e do direito de as mulheres ocuparem seu espaço no mundo do trabalho, sabemos que isso desperta reações violentas. Por isso, a CUT reúne todas essas lutas em defesa da vida, da existência e das condições dignas de trabalho das mulheres”, afirma.

Portanto, reduzir a jornada sem redução salarial significa garantir tempo para descanso, estudo, convivência e participação política, direitos historicamente negados às mulheres.

Soberania dos povos

Quando a soberania é atacada e a democracia enfraquece, os impactos não são iguais para todos. Eles atingem primeiro e com mais força quem já ocupa posições mais vulneráveis na estrutura social e, historicamente, as mulheres estão nesse lugar.

Em cenários de crise democrática, políticas públicas de proteção social são enfraquecidas, direitos são relativizados e agendas conservadoras ganham espaço. Como as mulheres dependem mais dos serviços públicos e também carregam maior responsabilidade pelo cuidado de crianças, idosos e familiares, qualquer corte ou desmonte do Estado amplia sua sobrecarga física, mental e econômica.

Além disso, mulheres estão mais presentes em empregos precarizados e informais. Em crises, são as primeiras a perder renda ou ter seus direitos reduzidos. E em contextos autoritários, há maior controle sobre seus corpos, maior perseguição a lideranças femininas e enfraquecimento das políticas de enfrentamento à violência.

Corresponsabilidade no Trabalho de Cuidados e Soberania

A discussão sobre a realidade das mulheres tem outro ponto fundamental: a corresponsabilidade no trabalho de cuidados. O cuidado não pode ser uma obrigação quase exclusiva das mulheres. A sobrecarga física e mental adoece, por isso, é preciso dividir essa responsabilidade entre família, sociedade e Estado.

A defesa da Política Nacional de Cuidados e a ratificação de instrumentos internacionais que garantam equilíbrio entre trabalho e responsabilidades familiares são apontadas como caminhos estruturais para romper com o ciclo de desigualdade.

Ao mesmo tempo, a defesa da soberania dos povos é reafirmada como eixo político: não há soberania real onde metade da população vive sob ameaça cotidiana.

Março: mês de visibilidade

Ao longo do mês de Março, o Portal e as redes sociais da CUT  vão apresentar diversis conteúdos formativos e informativos sobre o universo da mulher. Direitos, personalidades que são referência, serviços e vários outros temas farão parte da mobilização.

Os conteúdos apontaram para o caminho de que a violência contra a mulher não é um problema privado. É social, é estrutural e é coletivo e só será superado quando cada pessoa compreender que o silêncio também alimenta esse sistema. “Não tem neutralidade nessa realidade de quatro mulheres assassinadas por dia. Ou a pessoa age ou se cala. E se escolhe o silêncio, ‘não mete a colher’, permite que uma mulher possa morrer”, finaliza Amanda.

Atividades do Sindipetro-NF

O Sindipetro-NF vai divulgar, em breve, a sua programação para o Mês da Mulher. A previsão é a de participação em atos públicos, realização de rodas de conversa e de atividades culturais.