A escalada do conflito no Oriente Médio, com ataques ao Irã desde o fim de fevereiro, já provoca impactos diretos no mercado global de energia e começa a pesar no bolso dos trabalhadores brasileiros. A alta do preço do petróleo no mercado internacional, somada às fragilidades estruturais do setor energético nacional, tem pressionado os combustíveis e reacendido o debate sobre soberania energética no país.
De acordo com nota técnica do Dieese, o conflito ocorre em uma das regiões mais estratégicas para a produção mundial de petróleo. A instabilidade geopolítica e o bloqueio de rotas fundamentais, como o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — afetam diretamente a oferta global e elevam os preços .
Esse cenário já impactou o mercado internacional: em menos de 20 dias, o barril do tipo Brent praticamente dobrou de valor, saltando de cerca de US$ 60 para próximo de US$ 120 . O resultado é imediato: aumento dos custos de produção, transporte e logística, com reflexos inflacionários em diversos países.
Preço que chega ao consumidor está na mão de empresa privada
Segundo o Dieese, no Brasil, os efeitos já são sentidos nas bombas. O diesel teve aumento de 11,4% nas refinarias, enquanto, para o consumidor final, o preço já acumula alta média de 20,7%. A gasolina também subiu, cerca de 5,9%.
Mesmo quando a Petrobras segura reajustes nas refinarias próprias, o consumidor não é protegido. Isso ocorre porque o preço final não depende apenas da estatal, mas também das distribuidoras e dos postos de combustíveis — setores hoje majoritariamente privatizados.
Diante da escalada dos preços e do risco de desabastecimento, o governo federal anunciou um conjunto de medidas para tentar conter os impactos sobre o consumidor. Entre elas, estão a redução a zero das alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel, a concessão de subsídios para importadores e produtores do combustível, além da criação de impostos sobre a exportação de petróleo e diesel com o objetivo de aumentar a oferta no mercado interno. Também foram adotadas ações para dar mais transparência na formação dos preços nos postos.
No entanto, apesar dessas iniciativas, especialistas e entidades do setor alertam que as medidas enfrentam resistência de agentes privados e têm alcance limitado, especialmente diante da estrutura atual do mercado, marcada pela privatização da distribuição e pela influência das variações internacionais sobre os preços internos
Privatização da BR Distribuidora agrava repasses
Um dos fatores centrais para entender por que a alta internacional chega com força ao bolso da população é a privatização da BR Distribuidora. Antes controlada pela Petrobras, a empresa cumpria um papel estratégico no abastecimento nacional, do poço ao posto, podendo atuar como instrumento de regulação de preços e garantia de oferta. Com a privatização, essa função foi substituída pela lógica de mercado, baseada na maximização do lucro.
Na prática, explica a Nota Técnica, isso significa que distribuidoras privadas têm liberdade para ampliar margens, repassar aumentos de forma imediata — e, em alguns casos, até reter estoques diante de expectativas de alta, intensificando a pressão sobre os preços.
Esse cenário reduz drasticamente a capacidade do Estado de intervir para proteger o consumidor em momentos de crise, como o atual. Apesar de ser um grande produtor de petróleo, o Brasil segue vulnerável. O país produz cerca de 4,9 milhões de barris equivalentes por dia, mas não refina o suficiente para atender sua própria demanda.
A capacidade de refino é de aproximadamente 2 milhões de barris/dia, enquanto o consumo de derivados chega a 2,6 milhões. Com isso, o Brasil precisa importar cerca de 25% do diesel consumido . Essa dependência expõe o país às oscilações do mercado internacional, principalmente em momentos de crise geopolítica.
Política de preços e privatizações ampliam impactos
O Dieese alerta que a atual crise não é apenas consequência da guerra. Ela também é resultado de decisões políticas adotadas nos últimos anos por governos privatistas como de Temer e Jair Bolsonaro.
A política de Preço de Paridade de Importação (PPI), implementada em 2016, passou a atrelar os preços internos às variações internacionais. Ao mesmo tempo, a privatização de refinarias e da BR Distribuidora enfraqueceu os instrumentos públicos de regulação do setor.
Além disso, agentes privados atuam pressionando por reajustes e ampliando margens, o que contribui para que os aumentos cheguem com mais intensidade ao consumidor final .
Impactos na economia e no dia a dia dos trabalhadores
A alta dos combustíveis gera um efeito cascata na economia. O aumento do diesel, principal combustível do transporte de cargas, encarece alimentos, produtos e serviços.
Além disso, o aumento dos fertilizantes — também impactados pelo conflito — pode pressionar ainda mais os preços da produção agrícola.
Esse cenário tende a dificultar a queda da inflação e dos juros, comprometendo o crescimento econômico e a geração de empregos.
Soberania energética em disputa
Diante desse contexto, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e seus sindicatos filiados defendem mudanças estruturais na política energética brasileira.
Entre as principais propostas estão a ampliação do parque de refino; a retomada do controle estatal sobre ativos estratégicos; fortalecimento da Petrobras como empresa integrada; revisão da política de preços e o maior controle sobre a distribuição de combustíveis.
Para a categoria petroleira, a guerra no Oriente Médio evidencia um problema estrutural: um país produtor de petróleo não pode ficar refém das oscilações do mercado internacional e da lógica de lucro de empresas privadas.
Garantir soberania energética é fundamental para proteger a economia, os trabalhadores e o desenvolvimento nacional.





