22° Congrenf: “Hoje existe mais conscientização, mas o capacitismo ainda é muito forte”, diz petroleira autista da Petrobrás

Vitor Menezes / Imprensa do NF – A petroleira Mônica Prado, 61 anos, uma das delegadas do 22° Congrenf, deu um depoimento que impactou a todos os participantes sobre a realidade dos trabalhadores e trabalhadoras neurodivergentes. Em entrevista à Imprensa do NF, ela afirma que há boas políticas recentes e mais conscientização sobre o tema, o que ajudou muito no combate aos assédios e a outras formas de discriminação que haviam na década de 80, quando ingresso na empresa pela primeira vez, mas adverte que o capacitismo ainda é uma barreira.

Lotada na Comunicação Corporativa, com atuação na área de TI (Tecnologia da Informação), Mônica defende que as pessoas com diagnóstico de TEA devem ser melhor aproveitadas em todas as empresas, muitas delas inclusive por serem dotadas de potencial acima da média em suas áreas de atuação.

Confira a íntegra da conversa:

Imprensa NF – No Congresso você deu um depoimento muito marcante sobre a realidade dos trabalhadores neurodivergentes e sobre o grupo TEA. Para quem está de fora, muitas vezes esse universo é pouco conhecido. Você comentou que já existe um grupo organizado de trabalhadores. Como surgiu essa iniciativa?

Mônica Prado – Na realidade, fui diagnosticada com síndrome de Asperger quando tinha 16 ou 17 anos. Naquela época nem existia a nomenclatura TEA, que é mais recente. Mas eu nunca coloquei isso dentro da empresa porque havia um tabu e um preconceito enormes. Quando entrei na Petrobras, tive uma verdadeira guerra para conseguir permanecer trabalhando. Mesmo que a pessoa fosse qualificada, muitas vezes ela era descartada porque tinha algum problema considerado mental. Eu passei muito bem no concurso, lutei na Justiça para tomar posse, fui demitida na época do Plano Collor, entrei novamente na Justiça, consegui voltar e estou aqui até hoje. Esse grupo surgiu por iniciativa do Flávio Barcelos, que também é autista e trabalha na área de TI. A maioria de nós, por coincidência, é da área de tecnologia. Ele criou um grupo no Teams para que pudéssemos conversar e localizar outros autistas na empresa, porque os problemas que ele enfrentava no ambiente de trabalho eram praticamente os mesmos que todos nós enfrentávamos.

Imprensa NF – Que problemas são esses?

Mônica Prado – Excesso de barulho, excesso de luz, ruídos repetitivos que atrapalham muito a concentração. Hoje se fala muito em burnout. Eu costumo dizer que o autista vive em burnout, porque nosso cérebro não para. Muitos de nós tomamos medicação para desacelerar os pensamentos. Qualquer coisa pode tirar a gente do eixo. Então o Flávio criou esse grupo para reivindicar melhorias no ambiente de trabalho e também para combater o assédio e o preconceito, tanto por parte de gestores quanto de colegas. Existe um capacitismo enorme em relação aos neurodivergentes. Só que ser neurodivergente não significa não poder trabalhar. Muitas vezes acontece exatamente o contrário. Nós temos hiperfoco. Quando decidimos fazer alguma coisa, normalmente fazemos muito bem.

Imprensa NF – Você chegou a vivenciar situações de preconceito diretamente?

Mônica Prado – Sim. Eu tive um gerente que disse claramente que não me queria na equipe porque eu poderia tomar o lugar dele. Não faz o menor sentido. Mas era porque eu fazia determinadas atividades muito rapidamente. Existe essa visão equivocada de que a pessoa neurodivergente é um problema, quando na verdade ela pode ser um grande talento para a empresa.

Imprensa NF – Como esse grupo cresceu até chegar aos atuais participantes?

Mônica Prado – O Flávio gravou um vídeo que foi divulgado internamente na Petrobrás. As pessoas começaram a assistir e a procurá-lo. Ele virou uma espécie de polo de concentração. Todo mundo que já tinha diagnóstico ou suspeitava ser autista começou a se aproximar. O grupo cresceu tanto que hoje existe o Clube dos Autistas, que é aberto. Lá estão pessoas com TEA, TDAH e outras neurodivergências. É um espaço onde a gente troca experiências e se ajuda.

Imprensa NF – Você entrou na Petrobrás em que ano?

Mônica Prado – Minha história tem duas fases. Entrei em 1985, quando a Petrobrás ainda era administrada por militares. Naquela época o preconceito era muito forte. Consegui permanecer até 1990 ou 1991, mas quando veio o Plano Collor fui desligada. Depois fui para Brasília, lutei pelo reconhecimento do concurso e consegui retornar.

Imprensa NF – Em que período aconteceu esse retorno?

Mônica Prado – Foi em 1993 ou 1994. Só que quando a gente retorna por decisão judicial, a administração normalmente não vê isso com bons olhos. A perseguição foi muito forte. Houve assédio, discriminação e dificuldades constantes. Consegui uma requisição para trabalhar numa área de pesquisa fora da Petrobrás, dentro do governo. Depois fui chamada para atuar em projetos ligados à PUC e tive a oportunidade de participar de trabalhos muito importantes. Quando retornei à Petrobrás, a perseguição continuou, mas já não era mais por causa do autismo. Era porque eu tinha voltado por decisão judicial.

Imprensa NF – O ambiente melhorou nos últimos anos?

Mônica Prado – Melhorou muito. Principalmente de cinco anos para cá. Antes disso foi muito pesado. Tirei várias licenças médicas. Passei por situações extremamente difíceis. Teve uma ocasião em que eu estava muito inquieta e um gerente percebeu isso. Em vez de ajudar, começou a me provocar. Eu bati na mesa e pedi que ele parasse. Ele ligou para o setor médico e mandou trazer cadeira de rodas e camisa de força. Minha sorte foi que os enfermeiros que vieram me conheciam. Quando chegaram, olharam para mim e começaram a rir. Disseram: “Você de novo?”. Eu respondi: “Sou eu”. Eles sabiam que aquilo era um exagero absurdo. Depois disso consegui sair daquela área. Mais tarde fui para a Comunicação, onde estou até hoje. Tenho um gerente excelente e hoje vivo uma realidade completamente diferente.

Imprensa NF – Você comentou que existe esse grupo organizado. Existe algum levantamento oficial da Petrobras?

Mônica Prado – Hoje existem iniciativas da própria empresa. Foram criados comitês voltados para a neurodivergência. Eu mesma participei de um deles durante algum tempo. A Petrobrás está tentando mapear esse público. Quando a pessoa apresenta laudos e passa pela avaliação multidisciplinar, ela pode ser reconhecida como PCD. Participam psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais. Essas informações passam a integrar os registros da empresa e ajudam a construir esse levantamento. Um dado que temos é o de que, em maio de 2025, a Petrobrás estava com 400 trabalhadores com diagnóstico de alguma condição neurodivergente. No nosso grupo TEA temos 250.

Imprensa NF – O que ainda precisa avançar?

Mônica Prado – O principal é entender que o autismo não incapacita ninguém. Meu médico costuma dizer que temos uma condição neurológica, mas isso não impede a pessoa de trabalhar. Pelo contrário. Muitas vezes existem talentos extraordinários que poderiam ser melhor aproveitados. Se a empresa identificar as habilidades de cada pessoa e souber direcioná-las para as áreas adequadas, o ganho será enorme. Para se ter uma ideia, empresas como Microsoft e Oracle possuem programas específicos para contratação de autistas. Tenho um amigo autista que trabalha na Oracle e ocupa uma posição extremamente importante lá. O autismo nível 1, que é o meu caso, não deveria ser visto como uma limitação. O que precisamos é de respeito, compreensão e oportunidades para desenvolver aquilo que fazemos de melhor.

 

[Fotos: Vitor Menezes / Imprensa do NF]