Petrobrás ameaça retirada de comissários de bordo dos voos com S-92

Sindicato afirma que medida prevista para novos contratos pode sobrecarregar copilotos, contrariar procedimentos operacionais da aeronave e comprometer a resposta a emergências durante os voos offshore

O Sindipetro-NF recebeu com preocupação a informação de que a Petrobrás pretende retirar os comissários de bordo dos novos contratos de operação dos helicópteros Sikorsky S-92 utilizados no transporte de trabalhadores para as unidades offshore. Diretores do sindicato estiveram no Farol de São Tomé, uma das principais bases de operações aéreas offshore do país, onde voltaram a alertar aos trabalhadores sobre os riscos da medida.

Para o sindicato, não se trata simplesmente da retirada de um profissional da aeronave. O comissário desempenha funções diretamente relacionadas à segurança dos passageiros e à resposta a situações de emergência, além de colaborar com atividades em solo que permitem que comandante e copiloto permaneçam concentrados na preparação e operação do voo.

A preocupação é ainda maior pelas características do S-92. Diferentemente de helicópteros menores, nos quais passageiros e tripulação estão próximos e possuem contato visual mais direto, o S-92 possui uma cabine de passageiros maior e separada fisicamente do cockpit.

Enquanto aeronaves menores podem ter apenas três fileiras de assentos distribuídas em aproximadamente 2,7 metros, o S-92 pode contar com seis fileiras ao longo de cerca de 6,1 metros. Essa configuração aumenta a distância entre os passageiros e os pilotos e dificulta a comunicação imediata em caso de alguma ocorrência na cabine.

Sem o comissário, uma situação de pânico, mal súbito, princípio de incêndio ou outra emergência entre os passageiros pode não chegar imediatamente ao conhecimento dos pilotos. Em determinadas circunstâncias, um passageiro teria inclusive que se deslocar para tentar comunicar o problema à tripulação — o que, dependendo da ocorrência, pode representar um risco adicional.

O sindicato lembra, inclusive, ocorrência recente envolvendo a ejeção de uma janela de uma aeronave, na qual a proximidade entre passageiros e tripulação foi fundamental para que os pilotos tomassem conhecimento rapidamente do que havia acontecido.

Sobrecarga do copiloto preocupa Sindicato

Outro ponto questionado pelo Sindipetro-NF é a possibilidade de atribuir ao copiloto tarefas atualmente desempenhadas pelo comissário.

Segundo informações recebidas pelo sindicato, o manual operacional do fabricante estabelece o S-92 como uma aeronave dual pilot, ou seja, cuja operação é realizada por comandante e copiloto. Com os rotores em movimento, a permanência dos dois profissionais no cockpit é um elemento importante dos procedimentos de operação segura.

A transferência de novas atribuições ao copiloto também preocupa diante de dois conceitos fundamentais da segurança aérea: o CRM (Crew Resource Management) e o princípio conhecido como Cockpit Estéril (Sterile Cockpit).
O CRM está relacionado ao gerenciamento dos recursos da tripulação, à divisão adequada de tarefas, comunicação e tomada de decisões para reduzir erros humanos. Já o conceito de cockpit estéril estabelece períodos críticos da operação nos quais comandante e copiloto devem permanecer concentrados exclusivamente nas atividades essenciais ao voo, evitando tarefas e interferências que possam provocar distrações.

Na avaliação do Sindipetro-NF, transferir ao copiloto funções hoje executadas pelo comissário pode aumentar sua carga de trabalho e desviar sua atenção justamente de atividades fundamentais à segurança da aeronave.

Comissário é profissional treinado para emergências

A presença do comissário também representa uma resposta especializada dentro da cabine de passageiros. Esses profissionais possuem treinamento para atuar em situações de emergência em voo, incluindo capacitações específicas como T-FOET ou equivalentes.

Isso significa contar, dentro da cabine, com um profissional preparado para agir diante de situações como mal súbito, pânico, princípio de incêndio e outras intercorrências, enquanto comandante e copiloto permanecem responsáveis pela condução segura da aeronave.

Os comissários também participam de atividades relacionadas ao abastecimento e à preparação da aeronave, liberando os pilotos para se concentrarem nos procedimentos diretamente relacionados ao voo.

Segurança não pode ser tratada como economia

Para o Sindipetro-NF, qualquer alteração dessa natureza precisa ser precedida de uma análise rigorosa dos riscos e jamais pode ter a redução de custos como prioridade sobre a segurança dos trabalhadores.

“Ao invés de representar economia com pessoal, essa decisão pode implicar diretamente na segurança dos passageiros e tripulantes, além de produzir aumento dos próprios custos operacionais. Não podemos aceitar que uma função essencial seja eliminada e suas atribuições simplesmente transferidas ao copiloto”, alerta Coordenador do Departamento de Saúde, Alexandre Vieira.

O sindicato defende que a Petrobrás reveja a medida e apresente os estudos técnicos e análises de risco que fundamentaram a alteração prevista nos novos contratos. E permanecerá em alerta, acompanhando a situação no Farol de São Tomé e nas demais bases de operação aérea e cobrando da Petrobrás que nenhuma redução de custos seja realizada às custas da segurança.

Para o sindicato, transporte offshore seguro exige tripulação adequada, profissionais treinados e respeito aos procedimentos de segurança. A vida dos trabalhadores não pode ser uma variável de ajuste de contrato.