GREVE 2025

Força do movimento grevista petroleiro do norte fluminense garantiu conquistas para a categoria, avalia sindicalista

Coordenador do Sindipetro-NF, Sergio Borges,  faz balanço da mobilização do final de 2025

 

Brasil de Fato – “Não esperávamos passar o Natal em greve”, revelou ao Brasil de Fato o coordenador geral do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), Sérgio Borges. Mas o sacrifício do final do ano não foi pelo sufoco, mas pela animação de um movimento grevista fortalecido. Nessa entrevista, Borges faz um balanço da greve de 16 dias ocorrida no final de 2025. Ele explica que, diferentemente de paralisações anteriores voltadas contra privatizações ou retiradas de direitos, essa mobilização focou a conquista de avanços e melhorias nas condições de trabalho. Apesar de enfrentar o que classifica como uma postura autoritária da atual gestão da Petrobras e o desafio logístico de manter a estrutura da greve, o movimento alcançou a adesão de 100% das plataformas logo no segundo dia.

Os resultados práticos da paralisação incluíram um reajuste salarial acima da inflação, melhorias no banco de horas e o compromisso de resolver problemas nos descontos do fundo de pensão Petros, que afetam especialmente aposentados e pensionistas. Borges também ressalta que ainda existem pautas pendentes, como a unificação dos planos de cargos e salários e a situação dos trabalhadores do regime offshore. Ao relembrar os 30 anos de história do Sindipetro-NF, ele destaca que a atuação do sindicato sempre uniu a busca por benefícios e segurança operacional com a defesa da democracia. 

Brasil de Fato – Gostaria de começar um balanço da última greve. Vocês esperavam 16 dias de greve?

Sergio Borges – Essa greve foi ao mesmo tempo desafiadora e vitoriosa, assim por dizer. Desafiadora porque tinha uma série de aspectos que precisavam ser vencidos, aspectos organizativos, os ataques.

A gente estava há cinco anos sem fazer uma grande greve. A última foi em 2020, ainda no governo [do presidente Jair] Bolsonaro, numa conjuntura totalmente diferente, com ataques, trabalhadores sendo transferidos compulsoriamente, retirada de direitos, coisa e tal.

Então a gente teve que enfrentar esse autoritarismo e os ataques, a [presidente] Magda [Chambriard] também vinha impondo uma série de ataques como retirada forçada de trabalhadores de plataformas, navios ou bases operacionais, que geram perdas financeiras e assédio corporativo, que gerava uma série de problemas para os trabalhadores.

Aliado a isso, a gente teve que enfrentar os fake news da oposição, que ficava inventando um monte de mentiras ao longo dos últimos anos, inclusive sobre a própria negociação. E teve que organizar toda a estrutura para que a gente conseguisse dar conta de fazer essa greve grande, hospedar as pessoas, dar alimentação, transporte, tudo logística. Sem falar nos fatos principal desafio: mostrar a nossa independência.

Quando se faz uma grande greve no governo Lula, se mostra a nossa independência e a nossa legitimidade. A gente não vê contradição nenhuma nesse apoio, até porque na eleição foi Lula contra o Bolsonaro, ou seja, a democracia contra o fascismo e, por isso, a gente viu mais legitimidade ao cobrar melhorias de condições de trabalho, melhorias de benefícios. Então essa greve também tinha que mostrar essa independência e mostrar principalmente a força da categoria, que eu acho que foi o aspecto que ficou mais relevante. E a greve foi vitoriosa, né? E aí eu vou falar depois.

Quais foram as principais conquistas?


SB – 
Já respondendo sobre o que a gente esperava dos dias de greve e quais foram os preços de conquista, isso dialoga com a questão da greve ser vitoriosa. A gente inicia a greve sem saber quanto tempo ela vai levar, então nós não tínhamos ideia de que iríamos passar o Natal em greve, apenas uma perspectiva de que era uma possibilidade. Como a greve iniciou de forma muito forte e já no segundo dia, nós tínhamos 100% das plataformas aderindo ao movimento, e vale destacar que não são 100% dos trabalhadores, 100% das plataformas, realizaram suas assembleias, aderiram ao movimento de greve.

E, obviamente, a Petrobras se mexe e coloca nessas plataformas equipes de contingência que são empregados da companhia. Mas assim a gente tinha já 100% de adesão no segundo dia, isso fez com que a greve tomasse uma nova proporção e gerasse uma série de frutos que a gente pôde perceber no acordo coletivo. O principal deles foi de fato a demonstração de força da categoria petroleira porque foi uma greve de alta adesão, os trabalhadores entenderam que era necessário fazer esse enfrentamento, fazer essa luta e obviamente isso é um ganho político sindical muito grande.

Agora, a gente ganhou esses benefícios também práticos. Um reajuste acima da inflação, o fim de algumas cláusulas que geram prejuízo para os trabalhadores, a melhoria do banco de horas, a gente acabou com uma ação bilionária da Petrobras contra os Trabalhadores, a gente implementou pautas importantíssimas como a incorporação dos trabalhadores do Terminal de Cabiúnas (Tecab), da Transpetro à Petrobras, uma carta compromisso para resolver os problemas dos descontos no nosso fundo de pensão da Petros, que são descontos no fundo de pensão que geram prejuízo para os trabalhadores em especial aposentados e pensionistas.

 

Quais reivindicações ainda se mantêm?

SB – Sobre as reivindicações que ainda se mantêm, a gente sai desse ACT [Acordo Coletivo de Trabalho] com uma série de cartas compromissos, e essas cartas compromissos apontam soluções para pautas sensíveis para a categoria, mas que precisam ser resolvidas a curto e médio prazo. Então tem uma série de itens que a gente ainda vai carecer de algum debate com a empresa para construir soluções.

Eu cito aqui os principais, não todos, a questão dos PEDs. O que são os PEDs? São planos de equacionamento, que são descontos que são aplicados principalmente no nosso fundo de pensão da Petros, que geram prejuízos para os aposentados e pensionistas, e que a gente precisa construir uma solução definitiva para isso.

O debate, de novo, do novo plano de cargos. A gente está hoje com dois planos de cargos e salários e a gente precisa unificar esses dois planos. Isso requer também um longo debate. Têm pautas de anistias, têm trabalhadores ainda demitidos em governos anteriores que precisam ser anistiados. Tem pautas de incorporação dos trabalhadores da Transpetro que estão cedidos para Petrobras lá no Terminal de Cabiúnas. Tem um debate de incorporação desses trabalhadores e tem ainda a questão dos desimplantes dos trabalhadores offshore, que é uma pauta muito cara, trabalhadores que estão perdendo o regime de trabalho embarcado e que geram prejuízos tanto na escala de trabalho quanto prejuízos financeiros para os trabalhadores. Os principais pontos são aqueles que ainda carecem de uma série de debates.

 

Quais as principais memórias coletivas que fortalecem o sindicato ao longo desses 30 anos?


SB –
 Os 30 anos de história do Sindipetro-NF são marcados por lutas e conquistas. Essas lutas se materializam em greves históricas, principalmente nos momentos em que os direitos dos trabalhadores são atacados ou quando entendemos que é necessário avançar nas conquistas, garantindo uma divisão mais justa do lucro gerado pela companhia — lucro esse produzido pelos próprios trabalhadores. Também estivemos na linha de frente sempre que a Petrobras foi ameaçada de privatização, como ocorreu recentemente nos governos Temer e Bolsonaro.

O Sindipetro-NF surge na década de 1990, logo após as greves históricas de 1994 e 1995, quando os trabalhadores e trabalhadoras da Petrobras compreenderam a necessidade de criar um sindicato específico para representar a categoria no Norte Fluminense. Sua criação é fruto de um intenso processo de mobilização e de uma série de enfrentamentos, especialmente durante o governo FHC [Fernando Henrique Cardoso (1994-2022)], contra a privatização da empresa.

Desde então, o sindicato construiu uma trajetória marcada por muitas lutas e greves. Logo no início de sua história, enfrentamos greves importantes, como as de 2001 e 2002, e, ao longo dos anos, protagonizamos também as chamadas greves pela vida — mobilizações que mudaram, inclusive, a forma como a Petrobras passou a tratar as questões de saúde e segurança dos trabalhadores. Esse sempre foi um dos eixos centrais da atuação do Sindipetro-NF.

O sindicato teve papel decisivo na melhoria das práticas de segurança, inclusive na área de voos na Bacia de Campos. Houve um período em que enfrentamos muitos acidentes aéreos, uma realidade que ficou para trás graças à luta firme do movimento sindical.

Também conquistamos avanços significativos nas condições de trabalho, nos benefícios e nos salários ao longo dos últimos anos. Eu entrei na Petrobras em 2002, numa época em que não existia uma série de benefícios que hoje fazem parte da nossa realidade. De lá para cá, o sindicato lutou e conseguiu reabrir a Petros, nosso fundo de pensão, garantindo aos novos empregados o acesso à Petros 2. Reconquistamos o direito às dobradinhas — os pagamentos em dobro durante feriados — que haviam sido retiradas no governo FHC. Conquistamos o benefício farmácia, o benefício educacional, mais recentemente o vale-mercado e o reembolso do auxílio deslocamento no desembarque.

Por isso, a história do Sindipetro-NF é, essencialmente, uma história de lutas e conquistas. Lutas que, muitas vezes, são em defesa da Petrobras e dos direitos da categoria, mas que também extrapolam o campo corporativo. Há uma forte atuação em defesa da democracia. O sindicato participou intensamente da campanha em defesa da presidenta Dilma Rousseff, contra o golpe que acabou se concretizando em 2016, e se manteve firme durante todo o período de ataques à democracia, sempre defendendo um regime democrático em que os trabalhadores tenham voz e vez na disputa pelas riquezas do país.

Também estivemos presentes durante a pandemia da Covid-19, um dos períodos mais tristes da história recente do Brasil, quando perdemos muitos amigos e entes queridos. O sindicato participou ativamente de mobilizações solidárias, com doações de cestas básicas, máscaras, kits de higiene e álcool, reafirmando que sua atuação vai além da defesa corporativa e da própria Petrobras.

O Sindipetro-NF sempre esteve presente nas lutas de classe: contra a reforma da Previdência, contra a reforma trabalhista — que trouxeram enormes prejuízos aos trabalhadores — e em todas as mobilizações em defesa da democracia. Essa é, em essência, a história do Sindipetro-NF.